terça-feira, 10 de abril de 2018

Qual a Tua Pergunta? (Reflexão)



            Alguém escreveu no muro: "Cristo é a Resposta". Alguns dias depois, outra pessoa escreveu embaixo: "Qual é a Pergunta?" Tão importante quanto uma boa resposta - é uma boa pergunta.
O que nos impulsiona e nos move não é tanto a resposta - mas sim a pergunta.
A pergunta trás à tona a dúvida; expõe o que realmente esta preocupando o nosso coração; o que esta desassossegando a nossa alma; torna claro o que realmente ocupa a nossa atenção e quais realmente são os nossos verdadeiros Interesses.
UMA PERGUNTA ERRADA, CERTAMENTE LEVARÁ
A UMA RESPOSTA IGUALMENTE ERRADA.
Mas por que evitamos fazer as perguntas certas, aquelas que realmente importam?
Uma resposta provável é de que não queremos sair da nossa zona de conforto. No transcorrer da vida construímos um pequeno castelo e nos entrincheiramos dentro dele e qualquer coisa que possa colocar em risco a nossa "segurança", ou seja, qualquer coisa que possa nos desestabilizar deve ser evitado a qualquer custo. E nada gera mais desconforto do que uma boa pergunta. Você é realmente feliz? O que vem depois da morte? Estas e outras semelhantes são perguntas que penetram os mais bem construídos castelos e atingem com força intensa a nossa alma, de maneira que devem ser evitadas ou substituídas por perguntas mais amenas e até banais: Quem matou aquele personagem da novela? O que vou fazer neste feriado? Qual o time que será campeão este ano?
E quando conseguimos formular as perguntas que realmente importa? Quando vivenciamos um momento de crise. É durante as crises, quando tudo na nossa vida fica desfocado e quando os nossos aparentes fundamentos são abalados é que nos abrimos totalmente para enfrentarmos as perguntas que realmente precisam ser feitas. Durante a crise nos desnudamos e enfrentamos os grandes questionamentos, que estão latentes em nossa alma e que estavam adormecidos no recôndito de nosso coração.
A genuína felicidade, segurança e fé somente são encontradas nas respostas às grandes perguntas. Enquanto não tivermos coragem suficiente para formularmos as perguntas certas, permaneceremos no limbo da falsa segurança e da pseudo-esperança.
Em suma o que realmente importa é:
"QUAL A SUA PERGUNTA?"
O que te move? O que te motiva? O que te interessa?
Onde esta o Teu coração?
Você esta preocupado com o destino eterno da sua vida?

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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terça-feira, 3 de abril de 2018

Apocalipse: A Soberania de Deus


Nos dias em que o livro do Apocalipse foi escrito o império romano ainda dava as cartas em grande parte do mundo conhecido. O imperador romano e seus exércitos fizeram reinos e reis se curvarem diante deles e as ordens emanadas de Roma repercutiam até as mais extremas localidades e vilarejos debaixo de seus domínios.
Mas os romanos não foram nem o primeiro e nem o último império a surgir no mundo. Desde os primórdios da história humana temos relatos de impérios que surgiram e desapareceram. Até recentemente se falava do império russo e americano e que atualmente são apenas sombra do que foram.
Todos estes impérios e seus líderes, de ontem e de hoje, pensavam que estavam no controle do mundo. Mas os fatos históricos são contundentes em demonstrar que todos e cada um deles jamais estiveram realmente no “controle” dos acontecimentos. Um a um surgiram e desapareceram.
O Apocalipse foi escrito para mostrar quem está no controle.
O capítulo quatro do Apocalipse marca uma mudança drástica tanto do cenário quanto do assunto a ser desenvolvido. Nos primeiros capítulos o palco era a terra, mas agora é o céu. Nos primeiros onze versículos o escritor nos transporta juntamente com ele para diante do Deus eterno e glorioso assentado no trono, que simboliza seu Reino e Soberania.[1]
O termo “trono” aparece nada menos do que dezessete vezes nos capítulos quatro e cinco. Este trono esta no céu e não na terra, pois o exercício de seu poder e soberania se estende sobre todas as esferas da vida, seja terrena ou celestial.[2]
O escritor não faz qualquer tentativa de descrever a Deus, mas apenas descreve toda glória e resplendor produzido por sua presença ali. Toda descrição visa indicar características do caráter deste que se assenta no trono – sua santidade, sua justiça e a salvação provida através do Filho.
Ao redor do trono encontram-se vinte e quatro anciãos assentados em tronos representativos de todos aqueles que foram salvos, tanto no Primeiro quanto no período do Segundo Testamento, quer fossem judeus ou gentios. O objetivo deles é somente um – adorar Àquele que está assentado no trono, pois somente Ele é digno de receber adoração e louvor.
“Não devemos, contudo, perder de vista o fato de que a verdadeira razão por que estes vinte e quatro tronos com seus ocupantes são mencionados aqui é para intensificar a glória do trono que ocupa o centro. Esse trono representa a soberania de Deus. Os vinte e quatro anciãos estão constantemente rendendo homenagem ao Ser que ocupa o trono, tão grande é ele!” (HENDRIKSEN, 1987, p.108.
Os relâmpagos, as vozes e os trovões que irrompem intermitentemente a cena sugerem as manifestações visíveis e audíveis da presença poderosa de Deus (cf. no Sinai – Êxodo 19.16). Os poetas hebreus utilizavam os trovões para indicar a presença e a majestade de Deus (cf. I Samuel 2.10).
Se esta visão da Soberania de Deus não for adequadamente compreendida, tanto a unidade do livro quanto seu propósito será perdido. A certeza absoluta de que Deus reina soberanamente foi o alento do coração e da alma daqueles primeiros cristãos que estavam sendo esmagados pelo poder déspota de Roma e seus implacáveis imperadores; continua sendo o grande farol que dá sentido e direção para os cristãos atuais, que vivem nas trevas intensas do pós-modernismo com sua total falta de verdades absolutas.
Mais do que em qualquer outra época, os cristãos deveriam cantar a todo pulmão o que o salmista já cantava em seus dias e que os anciãos e seres viventes cantam eternidade adentro: “REINA O SENHOR, tremam os povos. ELE ESTÁ ENTRONIZADO ACIMA DOS QUERUBINS, abale a terra” (Salmo 99.1).

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Referências Bibliográficas
ALEXANDER H. E. Apocalipse. São Paulo. Ed. Ação Bíblica do Brasil, 1987.
ASHCRAFT, Morris. Comentário Bíblico Broadman, v.12, ed. JUERP, 3ª ed., 1983.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado, v. 6, ed Milenium, São Paulo, 1988.
CORSINI Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo. Edições Paulinas, 1984.
DOUGLAS J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo. Ed. Vida Nova, 2001.
FAUSSET, A. R. The Fausset's Bible Dictionary. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1949.
HENDRIKSEN, William. Mais Que Vendedores - Interpretação do livro do Apocalipse. São Paulo.  ed. CEP, 1987.
EASTON, Matthew George. Easton's Bible Dictionary. Thomas Nelson, 1897.
ELWELL, Walter A. (Edited) Baker's Evangelical Dictionary of Biblical Theology.  Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996.  [Baker Reference Library].
LAYMON, Charles M. The Book of Revelacion. Nova York. Abingdon Press, 1960.
LADD, George. Apocalipse – Introdução e comentário. São Paulo. Vida Nova, 2008.
McDOWELL, Edward A. O Apocalipse – Sua Mensagem e Significação. Rio de Janeiro. Casa Publicadora Batista, 1960.
SMITH, William, and LEMMONS, Reuel G. The New Smith's Bible Dictionary. Garden City, N.Y.: Doubleday & Co, 1979.
SUMMERS Ray. A Mensagem do Apocalipse. Rio de Janeiro. Ed. JUERP, 1980.



[1] “Eu continuei olhando até que foram postos uns tronos e um Ancião de dias se assentou” (Daniel 7.9).
[2] “O Senhor tem estabelecido o Seu trono nos céus, e o Seu reino domina sobre tudo”. (Salmo 103.19).

quinta-feira, 29 de março de 2018

Isaías: O Último dos Cânticos do Servo de Yahvé - Prólogo (52.13-15)



            Como vimos em artigos anteriores o Profeta Isaías é com toda propriedade chamado de “Profeta Messiânico” ou ainda “Profeta Evangélico” pelo fato de que nenhuma outra profecia do Segundo Testamento trata tanto e de forma tão minuciosa a questão messiânica como esse grande profeta e nenhum outro de seus pares proféticos foi tão citado e/ou referenciado do que os escritos deste profeta.
            Na segunda parte de suas profecias Isaias vai registrar uma série de cânticos denominados de “Cânticos do Servo de Yahvé” (43.1 – 53.12), onde temos em detalhes a vinda do Messias que todos os evangelistas e escritores do Segundo Testamento não têm qualquer duvida em identifica-lo com a pessoa de Jesus Cristo (Mt 8.17; Mc 15.28; Lc 22.37; Jo 12.38; At 8.27-40; 1Pe 2.21–24). Mas a grande maioria dos judeus rejeitou e continua rejeitando Jesus Cristo e permanecem aguardando a vinda do Messias até os dias atuais.[1]
            A revelação do programa salvífico de Deus através da História, registrada na Bíblia, é gradativa. Nesta série extraordinária de cânticos as mensagens do profeta Isaías alcançam o que podemos chamar de o clímax das profecias messiânicas. O conjunto dos Cânticos revela a mensagem maravilhosa da graça salvadora de Deus. Os Cânticos estão em forma crescente e cada um deles amplia e ilumina o próximo caminhando para o clímax no quarto e último o Cântico do Servo Sofredor (52.13-53.12), que tem sido citado por muitos expositores bíblicos como sendo o texto mais importante do Primeiro Testamento e quase sua totalidade é utilizada pelos evangelistas nas suas respectivas narrativas da paixão de Cristo. Nele vemos a convergência de todas as descrições do Messias que Isaías usou desde o capítulo quatro (4.2-6). Aqui está a descrição mais clara e abrangente do Primeiro Testamento sobre os sofrimentos do Messias em um só lugar. No que concerne ao fato e à exatidão da descrição, poderia muito bem ter sido composta após a tragédia no Calvário (ROBINSON, 1954, p. 146). Policarpo a chamava de a passagem de ouro do Primeiro Testamento. (veja o quadro de referências dessa passagem nas narrativas evangélicas).
Contexto Próximo
            Para melhor compreensão deste último cântico é necessário compreendermos o desenvolvimento narrativo proposto por Isaías nos capítulos 50 a 52.12. Aqui o profeta apresenta dois tipos de servos: um é o desobediente servo identificado com a nação israelita, que abandonou o seu relacionamento com Deus (Isaías 50.1-3, 11), e o outro é o Servo obediente, Cristo (versos 4-10). Este segundo servo se identifica com as necessidades das pessoas e submete-se plenamente a Deus (versos 4-5). Ele sofre, mas confia em Deus e continua comprometido em fazer a vontade de Deus (versículos 6-9). Aqueles que temem o Senhor devem obedecer (ouvir) o Servo (verso 10). Imediatamente o profeta introduz uma série de imperativos onde enfatiza a necessidade urgente de que as pessoas ouçam e obedeçam (51.1–16). O senso de urgência é realçado mediante o fato de que Deus está pronto para manifesta sua ira (juízo) sobre eles (versos 17–23). A nação de Israel deve acordar (52.1–2). A partir daqui Isaías muda o tom e lembra-os de que se no passado Deus agiu para puni-los (versos 3–6), muito em breve agirá para salvá-los, e esta alegre mensagem de salvação, não ficará restrita apenas aos israelitas, mas será anunciada a todos as pessoas da terra (todas as nações - versos 7-10). Mas este anúncio torna ainda mais urgente que eles abandonem seu estilo de vida babilônico e retornem à comunhão em santidade com Deus (versos 11-12). Então quando chegamos aos últimos versículos do capítulo 52 (13-15) somos conectados diretamente à descrição dos sofrimentos que o Servo haverá de passar, como o agente da salvação de Deus, pelas quais todos (israelitas e gentios) que vierem a crer serão redimidos. 
Quando adentramos a este último cântico somos arrebatados ao cume mais alto da cordilheira profética messiânica do Primeiro Testamento. Este cântico tem sido chamado de o "Cântico Épico da Redenção" do Primeiro Testamento quando alcança seu clímax em sua grande revelação do Redentor. Todos os movimentos inspirados se unem nesta sinfonia de salvação através do sacrifício vicário do Servo sofredor. A ênfase do poema está no "Messias vitorioso e triunfante". É através do sofrimento substitutivo do Servo que a salvação é alcançada e ele é exaltado. Com uma linguagem poderosa, o profeta Isaías descreve como a graça de Deus libertara todos os povos da escravidão do pecado através de seu servo sofredor.

Prólogo (52.13-15)
            Assim como no livro de Jó este último cântico abre-se com um prólogo, que ocupa os últimos três versos do capítulo cinquenta e dois, também é semelhante porque só aqui e no final é que Deus fala. Outra semelhança é o fato de como em Jó aqui também é o próprio Deus quem faz a apresentação – “Eis aqui meu servo” (como havia feito no primeiro cântico 42.1).
            Os ouvintes/leitores conhecem os cânticos anteriores é já sabem que o Servo tem uma missão divina para realizar (42.1-4) e que implica em muito sofrimento (49.1-7; 50.4-7). O profeta omitiu propositalmente a razão do intenso sofrimento para agora, no último cântico, explicitar o grande motivo desse terrível sofrimento pelo qual o Servo voluntariamente (em obediência a Deus) terá que suportar.
É o próprio Senhor (Yahweh) que apresenta o Servo e os principais temas da poesia nos versos de abertura, que aparecem e reaparecem nos grandes movimentos centrais. Todos os comentaristas são obrigados a debater aqui a questão imposta sobre “quem” é esse Servo. Uma abordagem ampla sobre esses debates com as diversas opiniões pode ser encontrada no excelente comentário Albert Barnes - Notes on the Bible - referente a 52.13-15 a 53.1-12. Mas de forma bem pedagógica cito a explicação proposta por Stanley M. Horton em seu precioso comentário deste livro profético:
O uso da frase “o servo do Senhor” pode ser retratada como três círculos concêntricos, o círculo exterior é a nação de Israel como um todo, pois ela foi chamada para fazer uma obra para o SENHOR; o círculo mediano é o remanescente piedoso de Israel que foi fiel ao SENHOR, mas que não poderia fazer a grande obra que precisava ser realizada, a obra de redenção e restauração; e o círculo mais interior é o próprio Messias, aquEle que realiza essa obra pela sua morte e ressurreição (2003, p. 553).[2]
Eis que o meu servo procederá com sabedoria [prosperará];
será exaltado, e elevado,
e mui sublime (52.13)
            Apesar de todo sofrimento e humilhação a Ele infringido, conforme os cânticos anteriores, Deus mesmo declara que o seu Servo haverá de prosperar sobre tudo e sobre todos, pois procederá com sabedoria (administrará seu reino com admirável sabedoria).[3]
            Mas como tão bem afirmou Paulo a sabedoria de Deus é loucura para os sábios e entendidos deste mundo tenebroso (1Co 1.23-24). A sabedoria do Servo o leva a mais profunda humilhação, em plena obediência ao Senhor, se submete à dolorosa e vergonhosa morte de cruz sendo completamente abandonado por Deus (Deus meu! Deus meu! Por que me abandonastes!). E deste aparente fracasso Ele é elevado pelo próprio Deus ao lugar mais alto de honra e de glória. O mundo jamais compreendera esse tipo de sabedoria, bem como o evangelicalismo brasileiro hedonista.
Esse é um jeito estranho de ser sábio, um jeito estranho de governar, um jeito estranho de ser exaltado, um caminho irracional para ser bem sucedido. Tudo o que sabemos sobre ser bem sucedido, eficácia e exaltação diz que se deve afirmar-se para ser exaltado, mas jamais ser humilhado. A humildade certamente não é o caminho para conquistar o poder. Satanás apresentou a Jesus o caminho do sucesso e do poder, conforme seu “best-seller” lido por todos os poderosos deste mundo - um caminho que teria claramente contornado a humilhação da cruz (Mt 4.1-11). Quando Jesus estava na cruz, Satanás, através dos espectadores, fez a oferta final; Ele ofereceu-lhe a oportunidade de descer da cruz e começar seu reinado (Mt 27.38-44). As autoridades religiosas judaicas e o populacho extravasam seu repúdio a um pretenso “Messias” que se deixa pregar em uma vergonhosa cruz; e os seus próprios discípulos ficam atônitos e sem ação diante do Gólgota e o representativo desta sensação de profunda frustração está nos dois discípulos que retornam para Emaús, cuja mistura de dor e decepção embaçam seus olhos de tal maneira que não conseguem reconhecer o Jesus ressurreto que caminha e conversa com eles através da longa jornada de praticamente um dia inteiro (Lc 21.13-35).
No entanto, Jesus desde o princípio optou pela sabedoria do alto, escolheu o caminho do Servo - o caminho da humildade, o caminho da obediência, o caminho da cruz. E será assim que Ele prosperará. Pouco antes de proclamar que ele seria levantado (crucificado), ele disse: "Agora o juízo está sobre este mundo; agora o governante deste mundo será expulso" (Jo 12.31). A grande batalha que ele travou foi com Satanás, e a grande vitória foi vencida na cruz. Foi assim que Ele tem atraído milhares e milhares de pessoas para si mesmo. É assim que ele nos atrai para Ele mesmo. E é esta a razão pela qual Ele foi exaltado por Deus.  
            A sequência destas três formas verbais: exaltado, elevado e sublime,[4] refere-se à sequência dos eventos relacionados com o Servo: exaltado no sentido que emergirá de seu estado de humilhação; elevado, pois receberá honra continuamente; sublime, pois será alçado à sua glória eterna. Sem muito esforço é possível antever aqui os eventos ocorridos com Jesus Cristo em sua morte (humilhado), ressurreição (exaltado), ascensão (elevado) e entronização (sublime/glorificado).[5]
            Nenhum outro alcançou maior glória do que o Senhor Jesus Cristo. Sua exaltação se realiza em sua ressurreição, ascensão e entronização na glória celestial. Ele foi elevado acima de todos poderosos da história humana. Isaías declara que o Servo haverá de receber a mais alta exaltação. Será uma exaltação total e absoluta. Deus lhe dará um nome acima de todos os nomes. Portanto, Ele é o único que pode salvar/redimir/resgatar seu povo.
            No livro de Atos temos as declarações de exaltação de Jesus Cristo: “Ora, a este Jesus, Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis” (2.32-33). “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus dos nossos antepassados, glorificou seu servo Jesus, a quem vocês entregaram para ser morto e negaram perante Pilatos, embora ele tivesse decidido soltá-lo” (3.13; cf. versos 14,15 e 18). “Ressuscitando Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, no apartar, a cada um de vós, das vossas maldades” (3.26). Atos (1.1-11) apresenta um relato histórico da ascensão de Jesus Cristo. O livro do Apocalipse nos apresenta de forma inigualável o Jesus Cristo glorificado, que governa todas as coisas e que virá para exercer sua prerrogativa de julgar os vivos e os mortos. Mas este não é o Jesus que interessa aos evangélicos hedonistas do século XXI.
Os versículos 14 e 15, que concluem a primeira estrofe, apresentam uma estrutura que se concentra na primeira linha do versículo 15, marcada com "X". As linhas "A" e "B" apresentam reação ao Servo do Senhor, e as linhas "1" e "2" apresentam a razão dessa reação.

Como pasmaram muitos à vista dele,
pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer,
e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens. (52.14)
            de igual modo ele aspergirá muitas nações,
e reis calarão a boca por causa dele.
Pois aquilo que não lhes foi dito verão,
e o que não ouviram compreenderão. (52.15)

Os sofrimentos infligidos ao Servo foram de tal forma que impactou a todos que o contemplaram. Seu semblante ficou tão deformado que Ele perdeu as características de sua humanidade: “Sua forma foi tão mudada que quase não podiam dizer que Ele era um ser humano” (cf. Is 49.7 e 50.6).[6] Toda a dignidade humana lhe fora roubada de maneira que não se podia reconhecê-lo como uma pessoa. Jesus tornou-se "o sofrimento personalizado" conforme o poema deixa claro mais adiante. Seus sofrimentos foram algo espantoso e não somente físico, mas mental e espiritual.[7] É como se o profeta estivesse sentado ao pé do Calvário. Ele vê o Servo (Cristo) pendurado no madeiro depois de ter sido cruelmente fustigado, cheio de espinhos, ferido e açoitado. Seu rosto estava coberto de contusões e sangue. Mas esse Servo de Deus, que será brutalmente morto, será exaltado, e essa será outra visão que espantará os que O contemplarem em seu poder e glória.
Assim como os amigos de Jó as pessoas que vierem a contemplar tão grande sofrimento do Servo dirão que ele fez algo terrível para receber tão terrível castigo da parte de Deus, um pecador acima de todos os homens. Mas o resultado chocante de seus sofrimentos é a provisão de purificação não apenas para os israelitas de acordo com a carne, mas para todas as nações, isto é, nós também. O justo pelos injustos, o santo pelos pecadores, pois Ele estará sendo moído pelas nossas iniquidades e recebendo sobre si a sentença de morte de nossos pecados. Toda a justiça de Deus cairá sobre Ele, para não cair sobre nós e Ele será abandonado pelo Pai, para que nós possamos declarar em alto e bom som “Abba Pai”.
            O aspergir [borrifar][8] está frequentemente associada à purificação do pecado no Primeiro Testamento (Êx 24.8; Lv 3.6; Nm 19.21, Ez 36.25). Mas diferentemente agora todas as nações e não apenas Israel/Judá, terão pleno acesso ao perdão e salvação proveniente, não mais dos sacrifícios de animais levíticos, mas unicamente do único e perfeito sacrifício de Jesus Cristo (Servo) no Calvário.
Os reis da terra se calaram, o silêncio de reconhecimento da grandeza daquele que está diante deles. Aqueles de todas as tribos, povos e raças que  nunca souberam e nunca virão creram. Eles que nunca tinham ouvido as profecias do Primeiro Testamento de um Salvador (Messias) vindouro; eles que não tiveram a vantagem de séculos de ritual religioso (Tabernáculo, Calendário religioso Levítico, Templo) apontando para a necessidade do sofrimento vicário de um Cordeiro perfeito; mas na proclamação do Evangelho eles poderão ouvir e ver (perceber) a verdade gloriosa sobre o sofrimento do Servo, ou seja, que ele morreu pelos seus pecados. O apóstolo Paulo, instrumento para traduzir essa mensagem messiânica do Servo Sofredor para os gentios, concluindo sua exposição do Evangelho aos crentes da cidade de Roma, faz esta declaração maravilhosa para todos os povos: Mas antes, como está escrito [Isaías]: “Hão de vê-lo aqueles que não tinham ouvido falar dele, e o entenderão aqueles que não o haviam escutado” (Rm 15.21). Tudo aqui se encaixa harmoniosamente com a escatologia desenvolvida por Isaías de um reino messiânico universal.
            A exaltação de Cristo (Servo) é para abençoar, não para condenar (verso 13). O reconhecimento de sua grandeza é ilustrado pelo fato de que reis e nações se prostrarão diante Dele (cf. Is 49.23; Sl 76.12; 102.15; 107.40; 138.4; 148.11; Jó 12.21; ainda Is 41.2; 45.1; 49.7,22,23; 60.3,16).
A mensagem de salvação e dos poderosos feitos do Senhor que os demais povos nunca haviam ouvido ou visto, lhes serão anunciadas e eles contemplaram a grande salvação de Deus (Rm 15.21; cf. também 16.25,26). Mesmo sendo rejeitado por Sua própria nação, Ele será crido por muitos povos que nunca tinham ouvido falar sobre Ele.

Conclusão
            Estas primeiras estrofes que compõe o prólogo desse último cântico do Servo servem de preparação para a proclamação completa que se fará a seguir. A descrição da inversão da situação do Servo do Senhor causará um impacto profundo e intenso sobre as nações e poderosos da terra e serve para despertar o ouvinte/leitor de que o que virá a ser declarado é algo maravilhoso e grandioso.
            Provavelmente em nenhuma parte do Primeiro Testamento, há uma exposição tão clara do propósito pelo qual o Salvador morreu. Isaías precede de forma inigualável toda mensagem evangélica que se constituirá no Segundo Testamento. Nem mesmo os evangelistas, ou as mais profundas cartas paulinas e talvez o Apocalipse possa alcançar a sublimidade das palavras do profeta Isaias aqui proferidas setecentos anos dos eventos relacionados ao Senhor Jesus Cristo.


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Referências Bibliográficas
BRIGTH, J. História de Israel. São Paulo: Ed. Paulus, 1980.
CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado – versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2001. [Volume 5].
DARDER, Francesc Ramis. Isaías 40-66. Bilbao (Epain): Editorial Desclée De Brouwer, S.A., 2008. [Comentarios a la nueva Biblia de Jerusalén]
FALCÃO, Silas Alves. Panorama do Velho Testamento – os livros proféticos. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução ao Velho Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações (JUERP), 1969.
GUFFIN, Gilbert. The Gospel in Isaiah [O Evangelho em Isaías] (Nashville, TN: Convention Press, 1968).
HORTON, Stanley M. Isaías – o profeta messiânico. Tradução de Benjamim de Souza. Rio de Janeiro: CPAD, 2003. [Série Comentário Bíblico].
KEIL, Carl Friedrich & DELITZSCH, Franz. Commentary on Isaiah. https://www.studylight.org/commentaries/kdo/isaiah-42.html. 1854-1889. [42.4].
LASOR, W. Sanford, DAVI A. Hubbard e FREDERIC W. Bush. Panorama del Antiguo Testamento - Mensaje, forma y transfondo del Antiguo Testamento. Buenos Aires: Ed. Nueva Creacion, 1995.
MOULTON, Richard G. Isaiah. London: Macmillan & Co., Ltd., 1903. [The Modern Reader’s Bible].
OSWALT, John N. Comentário do Antigo Testamento – Isaias. vol. 02 / tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
RIDDERBOS, J. Isaías – introdução e comentário. Tradução de Adiel Almeida de Oliveira. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1990. [Série Cultura Bíblica].
ROBISON, George Livingston. The book Isaiah – in fifteen studies. New York: Young Men’s Christian Association Press, 1910.
SICRE, José Luís. Profetismo em Israel – o profeta, os profetas, a mensagem. Tradução: João Luís Baraúna. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.
SMITH, James E. An expository commentary on the book of Isaiah - a Work in Progress. 2005.


[1] A partir das interpretações judaicas ao longo dos séculos têm surgido inúmeras propostas diferentes para interpretar esses cânticos. O grande comentarista J. Ridderbos em seu precioso comentário sobre o livro de Isaias nos oferece uma ampla discussão sobre as mais importantes linhas interpretativas destes cânticos (1990, p. 338-345).
[2] Outra ilustração semelhante e muito pedagógica é a elaborada pelo comentarista bíblico Franz Delitzsch em que ele propõe que o conceito de servo poderia ser simbolizado por uma pirâmide: “A base era Israel como um todo; a seção central era aquele Israel, que não era meramente Israel segundo a carne, mas também segundo o espírito; o ápice é a pessoa do Mediador da salvação que sai de Israel.” (1889, p. s/n – 42.1).
[3] O Targum traduz assim essa frase: “eis que meu servo, o Messias, prosperará”. Temos aqui uma afinidade com os salmos de entronização nos quais Yahweh é reconhecido como Rei de Israel. O Calvário sempre foi loucura para os gregos e escândalo para os judeus, mas para todo crente ensina Paulo o Calvário é a “sabedoria de Deus” (1Co 1.24). A exaltação de Cristo, vencendo a morte, demonstra a sabedoria de Deus e a ignorância do ser humano decaído.
[4] “Sublime e elevado” são usados em combinação quatro vezes neste livro e em nenhum outro livro do Primeiro Testamento. Nos outros três lugares (6.1; 33.10; 57.15) são usadas para se referir a Deus. É possível que Paulo estivesse cantando essas músicas enquanto escrevia aos filipenses e escrevia seu hino cristológico: “assumindo a forma de um escravo ... ele se humilhou”, mas Deus “exaltou soberanamente” a Jesus (2.6-9). Também Atos: “teu santo servo” e “foi exaltado” 2.13, 26 e 33).
[5] O Targum tem aqui uma interpretação messiânica, tal como faziam os antigos rabinos como Aben Ezra e Alshech. Diz o Targum: "Eis que Meu Servo, o Messias, aparecerá". Banchama afirma que o Messias seria exaltado acima de Abraão e Moisés, e seria superior aos anjos ministrantes (assim diz Pesika, no Targum sobre Núm. 27.2).
[6] Não tem faltado comentarista que em harmonia com a interpretação judaica afirmam que a nação de Israel é o “servo” em decorrência de sua longa história de abusos sofridos. Mas tais intepretações acabam sendo prejudicadas pelo conjunto dos Cânticos que enfatizam a personalidade do Servo e não sua tipificação.
[7] Como tão bem vai descrever Lucas em sua narrativa evangélica do Getsêmani.
[8] A palavra traduzida como "borrifar/aspergir" também significa a “assustar”, ainda que o significado principal desta palavra seja "borrifar/aspergir". O termo também significa "sobressalto". Se o significado primário de uma palavra não se encaixa no contexto, então é possível selecionar um significado secundário ou metafórico que satisfaz essas exigências. Uma vez que o profeta está traçando um paralelo entre o assombro dos espectadores com a execução do Messias e o grande assombro dos reis quando o Messias está sentado em Seu trono de glória, é possível aceitar o significado "espanto" como o termo correto expressando a ideia do hebraico nesta conexão. Devemos, portanto, tornar a expressão: "ele deve surpreender muitas nações".