quarta-feira, 7 de junho de 2017

Classificação dos Salmos


              Os Salmos ocupam um espaço considerável da literatura que compõe a primeira parte da Bíblia. Apesar de terem em comum a estrutura poética e melódica, todavia o conteúdo deles é diversificado de maneira que a mensagem de cada salmo segue uma temática distinta. Sem qualquer pretensão de radicalizar, podemos distribuir os cento e cinquenta salmos bíblicos por afinidades temáticas conforme abaixo. Será fácil perceber que alguns salmos se encaixam em mais de uma temática, pois seu conteúdo e os comentaristas nem sempre concordam com as classificações e nem com os salmos nelas inseridas, portanto o que fazemos é apenas um exercício no sentido de termos uma visão mais conjuntural dos salmos.
Salmos de Petição: Eles são um numero expressivo no arranjo do saltério e podem serem subdivididos em ao menos três categorias:
Súplicas e Lamentos da Comunidade: Envolve uma situação de sofrimento e carência, e contém uma expressão de dor, realçando a queixa, reclamação e lamento. O contexto é uma desgraça nacional de ordem agrícola, como seca, pragas, peste ou epidemia. Muitas vezes terminam com uma certeza de serem ouvidos: 12, 44, 58, 60, 74, 77, 79, 80, 82, 83, 85,90, 94,  106, 108, 123, 125, 126, 129, 137. Enfatizando a confiança: 115, 125, 129.
Súplicas e Lamentos do Individuo: É um dos temas mais frequentes no salterio e se desenvolve dentro de três situações – perseguição ou perigo, por enfermidade ou quando o salmista se vê injustiçado. Convicção de ser ouvido (presente apenas em alguns Salmos) e / ou um voto: 3-7, 9-11, 13, 16, 17, 22, 23, 25, 26, 27:7–14, 28, 31, 32, 35, 36, 38, 39, 43, 51, 54, 55, 56, 57, 59, 61, 63, 64, 69, 70, 71, 86, 88, 102, 109, 120, 130, 140, 141, 142, 143. Enfatizando a confiança: 3, 4, 11, 16, 23, 27:1–6, 62, 63, 67, 91, 121, 131
Salmos Imprecatórios: São os salmos mais constrangedores para a nossa cultura cristã, todavía é preciso lê-los em seu contexto oriental. As maldições pronunciadas são sobre aqueles que causaram uma crise, podendo ser interna de pessoas dentro da comunidade que cometeram injustiça, e às vezes pessoas de fora que, como os babilônios, invadiram o país e derrubaram as nações: 7, 28:4 ss., 35, 54:5, 55:15, 56:7, 58, 59, 69, 79, 83, 109, 137, 139.
Salmos Penitenciais: O salmista se defronta com seu pecado e se entristece pois sabe que ofende a Deus, por consequente roga pelo perdão: 6, 32, 38, 51, 102, 130, 143
Salmos de Louvor (Ações de Graças): é louvor a Deus por algo que Ele fez pelo salmista (que pode também representar a comunidade), oferecido em forma de adoração. É uma efusão de celebração emotiva na adoração baseada em alguma experiência imediata da bondade e graça de Deus. 18.3-7, 30, 32.3-7, 34, 40:2–12, 41.5-13, 52, 65, 66.13-20, 67, (68?), (75?), 92, 107, 116, 124, 136, 138, 139
Hinos (Adoração): é louvar a Deus porque Ele é Deus, e sabemos que Ele é porque clamamos a Ele e Ele agiu. Desde as mais antigas memórias Deus vem agindo em favor de seu povo e nunca falhou, de maneira que a fé descansa na soberania e providência de Deus, por isso o coração crente o louva continuamente. A tônica é festiva e canto coral e geralmente composto por uma introdução, corpo e conclusão. Um refrão normalmente é utilizado como por exemplo “Louvai ao Senhor, porque ele é bom”: 8, 19, 29, 33, (47), 65, 66, 67, 68, 93, (96-99), 100, 103, 104, 105, 111, 113, 114, 117, 118, 135, 136, 145-150.
Salmos Litúrgicos: Estes salmos são caracterizados pela sua estrutura antífonal, particularmente adequado para o culto comutário.
Salmos do Pacto: Relembra o momento em que Deus estabeleceu sua Aliança com Israel: 50, 78, 81, 89, 132
Salmos de Entronização Real: Se distingue dos hinos por causa do tema e ocasião. Canta-se ao Senhor que toma possessão de sua autoridade real, o qual se representa em uma celebração litúrgica. É utilizada com variações a expressão “o Senhor reina”. Eles celebram os acontecimentos presentes e não escatológicos e somente posteriormente serão utilizados pelos profetas, como Isaias, com uma reinterpretação profética, escatológica: 2, 8, 15, 18, 20, 21, 24, 29, 33, 45, 47, 50, 66,  72, 81, 84, 93, 95-99, 101, 103, 110, 114, 118, 132, 144, 149.
Salmos de Sião: São cânticos que tem como tema Jerusalém a capital religiosa, o monte onde foi construido o Templo e também como ocasião litúrgica da peregrinação e festa na cidade capital. O refrão é “O Senhor nos protege desde sua cidade”: 46, 48, 76, 84, 87, 122
Salmos do Templo: Assim como o Tabernáculo demarcava a presença de Deus no meio de seu povo, o Templo também detinha essa mesma conotação: 15, 24, 68, 82, 95*, 115, 134
Salmos Didáticos: surgidos em círculos de sabedoria com enfase crescente no estudo da História e da Torá  (sacerdotes e levitas):
Salmos Acrósticos: A poesía hebraica não tem ritmo regular nem rima e muitas vezes é extremamente emocional. A estrutura acróstica facilita a memomrização e o Sl 119 é o exemplo maior onde a cada oito versos inicia-se com uma letra do alfabeto hebraico sempre enaltecendo o valor da Torá. Mas os acrósticos tem temas variados, hinos, confiança, penitenciais: 9-10, 25, 34, 37, 111, 112, 119, 145 [Pv 31.10-31].
Salmos Sapienciais: Eles compartilham características com as tradições da Sabedoria do Velho Testamento (Jó, Provérbios, Eclesiastes) em termos de estruturas literárias, vocabulário e conceitos. Se caracteriza pelo seu tom reflexivo e às vezes didádico tratando de temas como as injustiças da vida e a justiça de Deus, as responsabilidades de escolher o caminho correto ou o modo de viver, o valor relativo das riquezas e a natureza transitória da existência humana, o sofrimento do inocente, o destino do justo e do impio, a fraternidade comunitária. Os salmos da sabedoria, como Provérbios, dão uma imagem ideal, são princípios gerais, não leis absolutas. Este tipo de ensino é mais explicito no livro de Provérbios: 1, 37, 49, 73, 78, 91, 101, 112, 119, 127, 128, 133.
Salmos Históricos: É claro que seu foco é a história bíblica, ou seja, as manifestações de Deus na história de seu povo. Eles irão rever os grandes eventos da criação do mundo, escolha de Abraão, o êxodo do Egito e nascimento da nação israelita, o estabelecimento do trono de Davi, e o cativeiro babilônico, bem como a promessa de retorno. Como essas narrativas já se encontram nos livros de Gênesis a Ester, o salmista apresentar uma perspectiva diferente, sintetizando-os facilita a memorização e possibilita uma melhor compreensão destes eventos, talvez um pouco como uma comparação dos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) que amplia a compreensão da história de Jesus Cristo. Entretanto é preciso lembrar que os Salmos são outro gênero de literatura, ou seja, a poesia, e utiliza livremente a linguagem figurativa, de maneira que não se deve interpretar uma figura nos salmos como uma realidade literal da história: 8, 19, 29, 33, 46, 47, 48, 76, 84, 87, 93, 96, 97, 98, 99, 103, 104, 105, 106, 113, 114, 117, 122, 135, 136, 137.
Salmos Messianicos: Os Salmos que fazem referência a vinda de Cristo, a encarnação, o julgamento, os sofrimentos, a morte, a ressurreição, a ascensão, etc. Os Salmos são citados pelo próprio Jesus mais do que qualquer outro livro do Antigo Testamento, mesmo o livro de Isaías. Há mais de 100 citações ou referências no NT sobre Jesus Cristo tiradas do livro dos Salmos. Nestes salmos encontram-se referencias ao Messias e muitos deles foram assim interpretados e utilizados pelos escritores do Novo Testamento: 2, 8, 16, [21], 22, [23, 24, 34], 40, 41, 45, [61], 68, 69, [72, 75], 89, 91, 97, 102, 109, 110, 118, 132 (cf. Lucas 24:44; Atos 13:33).

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/


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A Bondade de Deus - Salmo 136    
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