sábado, 19 de agosto de 2017

O Olhar de Jesus (Evangelho Marcos)


Uma das características da narrativa desenvolvida pelo evangelista Marcos é a capacidade que ele tem de apreender detalhes que seus colegas sinóticos,[1] Mateus e Lucas, na maioria das vezes são mais econômicos.
Incrustado entre seus dois companheiros mais volumosos[2] Marcos nos cativa justamente pela plasticidade de seu texto[3] repleto de nuanças que torna prazerosa e fascinante a leitura de seu relato evangélico. Ele faz o leitor sentir-se parte do que esta acontecendo - uma espécie de "você estava lá." Podemos dizer até que Marcos desenvolve uma Leitura em Terceira Dimensão - onde o leitor sente-se VENDO e PARTICIPANDO dos acontecimentos como se estivesse presente.
Uma destas peculiaridades é a forma com que Marcos descreve para nós o olhar de Jesus em algumas ocasiões (cf. 3.5, 34; 10.23; 11.11). Vejamos, a título de exemplo, uma destas passagens:
Mc 3.5 - "Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração, disse ao homem: estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada."
A forma com que Marcos registra é tão vívida que nos possibilita como que vermos o que e como Jesus esta vendo aquela cena. Uma tradução mais literal seria: "e tendo olhado ao redor para eles" e que será semelhante à forma com que Jesus vai olhar também para os seus próprios discípulos.
Este olhar de indignação não é de condenação, mas de um anelo para que aquelas pessoas pudessem entender quais realmente são as coisas mais importantes e aquelas que são secundárias.[4] Jesus em alguns minutos vai restaurar a mão ressequida de um homem, que, portanto, de uma pessoa inútil para o trabalho e para o sustento de sua vida e da família, tornar-se-á uma pessoa útil para viver plenamente sua vida. Mas a reação de parte daqueles que estavam olhando esta mesma cena será de completa reprovação e violência, pois ao saírem começam a planejar a morte de Jesus (3.6).
Antes de curar aquele homem e libertá-lo de sua incapacidade de viver plenamente, Jesus olha para aquelas pessoas que entrincheiradas em sua religiosidade haviam perdido completamente a sensibilidade para com o próximo.
Ao olhar ao redor Jesus é tomado por uma profunda indignação pela insensibilidade deles. Mas diferentemente da nossa ‘indignação' que normalmente é transformada em ações duras e implacáveis, a de Jesus é totalmente revestida por uma tristeza misericordiosa e amorosa,[5] pois Jesus sabia que a dureza do coração dele[6] era decorrente de uma espiritualidade distorcida, permeada pela insensibilidade e obstinação.
Os tempos verbais utilizados por Marcos nos dão a idéia de que o olhar indignado de Jesus foi momentâneo, desvaneceu-se rapidamente, enquanto que seu olhar triste(misericordioso) foi continuo, ou seja, permaneceu. Em sua experiência pessoal com Deus o salmista declara: "Pois a sua ira só dura um instante, mas o seu favor dura a vida toda;" (Sl 30.5). Esta continua sendo a experiência de todo crente.
Evangelho de Jesus é muito mais do que um amontoado de preceitos e normas - é vida. O nosso olhar de indignidade para com aqueles que não compreendem como compreendemos e que não defendem os mesmos valores que nós defendemos jamais podem nos cegar a ponto de incapacitar de olharmos continuamente pelo prisma da misericórdia e do amor - que é a forma permanente com que Jesus olha para nós.
Antes de nos entregarmos à nossa "justa indignação" é preciso nos perguntarestamos indignados, olhando com os olhos de Jesus, ou manifestando nosso preconceito religioso ou uma atitude profundamente egoísta?

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
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Referências Bibliográficas
ANDERSON, Hugh. The Gospel of Mark. London: Marshall, Morgan & Scott, 1976.
BETTENCOURT, Estevão. Para Entender os Evangelhos.  Rio de Janeiro: Agir, 1960.
CARSON D. A., DOUGLAS, J. Moo & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo:  ed. Vida Nova, 1997.
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2006, 8ª ed.
CRANFIELD, C. E. B. The Gospel According to St. Mark. Cambridge: Cambridge University Press, 1966. 
GUTHIRIE, Donald. New Testament Introduction. Illinois: Inter-Varsity Press, 1980.
LEAL, João. Os Evangelhos e a Crítica Moderna. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1945.
HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Marcos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
MULHOLLAND, Dewey M. Marcos – introdução e comentário. Tradução de Maria Judith Menga. São Paulo: Vida Nova, 1999. [Série Cultura Bíblica].
SOARES, Sebastião Armando Gameleira & JUNIOR, João Luiz Correia. Evangelho de Marcos, v.1, ed. Vozes, Petrópolis, 2002.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
TORREY, C. C. The Four Gospels, 2nd ed. New York: Harper, 1947.
_______________________________
[1] A palavra "sinótico" (synoptico) vem do grego synoptikós de synopsis (syn, com +ópsis, visão) e significa ‘o que tem a mesma visão, ou mesma perspectiva'. Veja mais sobre este assunto - http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/152863/SINOTICOS-INTRODUCAO/
[2] Nas versões em português Lucas tem 40 páginas, Mateus 37 e Marcos 23; Lucas possui cerca de 1.147 versículos, Mateus tem 1.068, enquanto que Marcos possui quase metade disso, apenas 661 versículos.
[3] A palavra ‘texto' vem do latim ‘tecer' de maneira que o escritor vai tecendo sua história e/ou narrativa. No caso particular de Marcos sua "tapeçaria" trás múltiplas tonalidades e cores tornando seu texto vivido e atrativo de maneira que encanta e fascina seus leitores.
[4] A ira de Deus descreve o desagrado de Deus em relação à maldade humana, mas sempre esta vinculada a um apelo à mudança ou arrependimento (Dt 9.7,8, 22; Is 60.10; Sl 6.1; 38.1).
[5] O particípio "profundamente entristecido" (syllypoumenos), usado somente aqui no NT, é a forma intensiva do verbo "ser triste ou chorar."
[6] O "coração duro" (melaphor) sugere que as pessoas fecharam-se a palavra de Deus(Ez 3.7, Atos 28.27; Rom 2.5), que também descreve os discípulos em 6.52 e 8.17.


Governantes dos Impérios da Babilônia e Medo-Persa (Período do exílio e pós-exílio)


A história da nação de Israel/Judá está entrelaçada com a história dos grandes impérios. Esta lista inclui apenas os governantes que aparecem nos relatos do Primeiro Testamento durante o período exílico e pós-exílio de Israel e Judá.
Nabucodonosor:   Ele era o filho de Nabopolassar[1] e governou a Babilônia durante quarenta anos (602-562 aC),   Nabucodonosor provou ser um líder militar capaz antes de sua ascensão ao trono, em particular, ele ganhou a batalha crítica de Carquemis enfrentando um dos mais extraordinário governante egípcio o Faraó Neco II  (605 aC). Ele conquistou a SíriaPalestina e a Fenícia (Tiro) antes de voltar a Babilônia para tomar o lugar de seu pai como governante do reino. Em 586 aC, ele havia invadido Jerusalém e levado um numero expressivo de habitantes de Judá e Benjamim para o cativeiro (entre eles Daniel e seus três amigos). A Babilônia expandiu durante o seu reinado, e ele completou um impressionante conjunto de projeto de arquitetura, incluindo o famoso Jardins Suspensos da Babilônia.   O nome de Nabucodonosor ocorre com frequência em vários livros do Primeiro Testamento, principalmente, nos escritos proféticos de Daniel.
 Belsazar: Um descendente de Nabucodonosor e reinou na Babilônia por cerca de 14 anos (c. 553-539).   Muito desse tempo ele foi orientado por um regente de seu pai, Nabonido. Foi ele que durante um banquete viu uma “mão escrevendo na parede” conforme registrado pelo profeta Daniel no capitulo 5. Segundo o relato do profeta, Belsazar morreu como resultado do julgamento de Deus sobre sacrilégio por ele cometido, quando mandou trazer os utensílios sagrados dos judeus e bebeu vinho neles.
 Dario, o Medo: Essa figura misteriosa só aparece nas páginas do Primeiro Testamento.   O livro de Daniel afirma que ele assumiu o controle da Babilônia no rescaldo da morte de Belsazar. Ele, de acordo com Daniel, aprovou a lei infeliz que levou a experiência do profeta na cova do leão.   Vários estudiosos do Primeiro Testamento acredita que Dario pode ter sido outro nome para Gubaru, um associado de Ciro.
 Ciro: Este rei persa tomou o poder ao derrubar o governo de seu pai, Cambises I (539-530 aC ).   Suas façanhas militares impressionantes consolidou um império enorme sob seu governo, governando desde o Mar Egeu até a Índia.   Ele trouxe um fim ao domínio dos babilônios ao vencer a batalha de Opis (c. 538 aC).   Suas políticas iluminadas de governar permitiu que as pessoas conquistadas mantivesse sua cultura e religião, assim, ele permitiu que um grande número de judeus, bem como todos outros povos exilados, retornassem para Jerusalém para reconstruir a cidade em ruínas.   Ele desempenhou um papel importante na história registrada em II Crônicas, Daniel e Esdras. Durante uma campanha militar nas Montanhas Indianas, Ciro morreu em batalha.   Sua morte súbita e inesperada abalou o Império Persa, e, por um tempo, seu filho Cambises II assumiu o trono.   Com toda a probabilidade, os exilados judeus, sob a liderança Zorobabel, voltou a Jerusalém neste momento.   Cambises morreu sob circunstâncias misteriosas, na Palestina em cerca de 522 aC.
 Dario, o Grande: Um primo de Cambises II, Dario tinha afirmação duvidosa no tronoMedo-Persa, no entanto, ele aproveitou e consolidou o seu poder através de campanhas militares cruéis contra qualquer região que questionavam sua autoridade.   Apesar de ser um administrador talentoso e líder militar, suas ambições políticas lhe custou sérias derrotas militar nas mãos dos gregos (em particular, a famosa Batalha em Maratona em 490 aC).   Dario desempenhou um papel importante na reconstrução de Jerusalém.   Os esforços para reconstruir a cidade, é claro, começou com Ciro, mas os esforços para ressuscitar uma presença judaica em Judá continuou sob o reinado de Dario (c. 521-486 aC). Os profetas Ageu e Zacarias pregou durante o reinado de Dario.
 Xerxes: (também conhecido como Assuero). Este rei persa aparece com destaque na história de Ester. Ele  governou a Pérsia por cerca de 22 anos (c. 486-464 aC).  Ele era filho de Dario, o Grande, e neto de Ciro.   Assim como Dario, ele tentou tomar a Grécia, Com algum sucesso, mas em 480 aC sua frota sofreu uma perda irreparável na Baía de Salamina. Diversas fontes gregas e também o pequeno livro de Ester retratar Xerxes como um monarca ingênuo e indeciso.
 Artaxerxes: Esta é, provavelmente, o homem conhecido como Artaxerxes Longimanoem fontes seculares da época; ele governou os persas por cerca de 42 anos (c. 465-424)   Neemias serviu na corte deste imperador, e também foi ele que apoiou os esforços de Esdras e Neemias para completar a reconstrução do Templo e dos muros da cidade de Jerusalém. Durante seu período de governo inúmeros problemas administrativos e uma enorme instabilidade política produziram um desgaste continuo que produziram um enfraquecimento do império.

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 2005.
BALANCIN, Euclides Martins. História do Povo de Deus. São Paulo: Paulus, 1989.
BRIGTH, Jonh. História de Israel. 7ª. ed. São Paulo: Paulus, 2003.
CASTEL, Francois. Historia de Israel y de Judá. Desde los orígenes hasta el siglo II d.C. Estella: Editorial Verbo Divio, 1998.
DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. São Leopoldo, RS: Sinodal; Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. 2 v. p.343.
FRANCISCO, Clyde T. Introdução ao Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1969.
FOHRER, Georg. História da religião de Israel. Tradução de Josué Xavier; Revisão de João Bosco de Lavor Medeiros. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.
HOFF, Paul. Os livros históricos. São Paulo: Editora Vida, 1996.
JOSEFO, Flavio. História dos Hebreus. Ed das Américas; s.d.; Vol 2: 279
LASOR, Wílliam S., HUBBARD, David A. e BUSH, Frederic, W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999.
LIVERANI, Mario. Para além da bíblia: história de Israel. São Paulo: Loyola; Paulus, 2008.
MERRILL, Eugene. História de Israel no Antigo Testamento. Tradução de Romell S. Carneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
MESQUITA, Antônio Neves de. Estudo nos livros dos Reis. Rio de Janeiro: JUERP, 1983.
NOTH, Martin. Historia de Israel. Barcelona: Ediciones Garriga, 1966.
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

[1] (626-605 a.C.). A oposição de Nabopolassar às forças assírias que marchavam contra a capital Nipur, a 97 km ao sudeste da Babilônia, impediu a invasão assíria. A triunfal resistência da Babilônia a este ataque resultou no reconhecimento de Nabopolassar como rei da Babilônia em novembro de 626 a.C. Ele posteriormente derrotou os assírios no norte, ao longo do Eufrates, empurrando-os até Harã e depois estabeleceu uma aliança medo-babilônica ratificada com o casamento de seu filho Nabucodonozor e Amytis, filha do filho de Ciaxares.


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Evangelho Segundo Mateus: Propostas de Estruturas


É sempre difícil estabelecer qual é a estrutura de um evangelho. Continuamente aparecem novas propostas de divisão do Evangelho que se sobrepõem e até mesmo tornam-se conflitantes entre si, o que torna quase impossível estabelecer um consenso sobre a importância destes esforços dos estudiosos.
Mas quando examinamos a narrativa inteira de Mateus é possível detectar ao menos quatro modelos estruturais:
Modelo dos Cinco Discursos: Vários estudiosos caminham junto com B. W. Bacon em que Mateus estrutura seu evangelho em cinco grandes discursos e/ou seções e que cada um destes discursos é precedido de uma narrativa e por esta razão ele propõe a divisão do Evangelho em cinco livros:
1º Livro         Narrativa caps. 3-4            Discurso caps. 5-7  (Sermão da Montanha)
2º Livro          Narrativa caps. 8-9  Discurso cap. 10 (Missão dos Apóstolos)
3° Livro         Narrativa caps. 11-12       Discurso cap. 13 (Sermão sobre o Reino)
4º Livro          Narrativa caps. 14-17         Discurso cap. 18 (Sermão Comunitário)
5º Livro         Narrativa caps. 19-22       Discurso caps. 24-25 (Sermão Escatológico)
Desta forma os caps. 1 e 2 tornam-se um preâmbulo e os caps. 26-28 um epílogo. Para Bacon a intenção de Mateus, ao estruturar desta forma seu trabalho, era fazer uma ligação direta com os Cinco Livros de Moisés e demonstrar que Jesus era aquele que veio para Cumprir toda a Lei.
Modelo Quiástico: Os defensores desta estrutura parte do costume dos escritores do AT em utilizar esta forma literária tanto na poesia quanto na prosa. A ideia é de enfatizar o ensino mais importante, colocando-o no centro da narrativa ou da poesia. O exemplo abaixo coloca como centro o cap. 13, mas outros colocam o cap. 14 ou o cap. 11.
1) 1-4, Nascimento – começo da atividade do Messias
    2) 5-7, bem-aventuranças – promulgação do Reino
             3) 8-9, autoridade do Messias e convite ao Reino
                       4) 10, discurso da missão
                                5) 11-12, o Messias rejeitado
                                              6) 13, parábolas do Reino
                                 5) 14-17, o Messias reconhecido pelos seus
                        4) 18, discurso eclesial
               3) 19-22, autoridade do Filho do Homem e convite ao Reino
     2) 23-25, maldições – realização do Reino
1) 26-28, morte, ressurreição, novo começo
Esta forma de estruturar a narrativa coloca como tema central o Reino de forma que tudo antes e depois realçam essa temática.
Modelo Geográfico: Os defensores desta estrutura partem da grande cisão existente entre cap. 16,20 e 16,21 – logo após a declaração de Pedro de que Jesus é o Messias, o evangelista declara: “A partir deste tempo, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos...” (16,21). Esta frase nos reporta ao cap. 4,17 A partir deste momento, começou Jesus a pregar...”. Assim, a narrativa divide-se em duas partes principais: o ministério de Jesus na Galileia e a sua viagem para Jerusalém. Muitos chamam de “modelo marcano”, pois coincide bastante com o modelo proposto por Marcos. Todavia, essa estrutura acaba por deixar de lado os diversos marcadores literários que Mateus estabeleceu.
Modelo Cristológico: Vários estudiosos entendem que Mateus se estrutura no tema cristológico utilizando três grandes seções: caps. 1.1-4.16 – A Pessoa de Jesus, o Messias; caps. 4.17-16.20 – A Proclamação de Jesus, o Messias; caps. 16.21-28.20 – Sofrimento, Morte e ressurreição de Jesus, o Messias. O referencial literário é que ao final das duas primeiras divisões aparece a expressão “desde esse tempo” marcando um avanço na narrativa da história.
Conclusão
Nenhum esboço e/ou esquema poderá fazer justiça a esta preciosa obra escrita por Mateus, mas pelo menos nos ajudam a perceber a multiplicidade dos detalhes e a grandiosidade da obra completa.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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NT – Introdução Geral

Referência Bibliográfica
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado. São Paulo: ed. Milenium, 1985. [v. 1].
CARSON, D. A., MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
EARLE, Ralph. O Evangelho Segundo Mateus. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon].
GIBSON, John Monro. The gospel of St. Matthew. London: Hodder and Stoughton, 1935. [The Expositor’s Bible].
HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.
HENDRIKSEN, William. Mateus, v.1 São Paulo: Cultura Cristã, 2001. [Comentário do Novo Testamento].
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus: pesquisa de história econômico-social no período neotestamentário. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1983.
RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus – comentário esperança. Tradução Werner Fuchs. Curitiba-PR: Editora Evangélica Esperança, 1998.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Os Paradoxos da Felicidade nas Bem Aventuranças (Mateus 5.1-12)

Bem Aventurados....
            O Evangelho foi mal compreendido ainda nos dias em que Jesus caminhava pelas estradas empoeiradas da Palestina judaica e o proclamava exaustivamente.
            A mensagem evangélica de Jesus impactou os ouvidos desabituados de um povo que há quatro séculos não ouviam palavras proferidas com tão grande autoridade e poder. Multidões começaram a serem atraídas pelas palavras proferidas por Jesus de maneira que em poucos meses um número expressivo de pessoas passou a segui-lo em seu ministério itinerante pelas cidades e vilarejos espalhados por todo o território judaico.
            É importante realçar o fato de Jesus não fazer da grande capital, Jerusalém, a sua base de operações. De acordo com os textos dos evangelistas Jesus passa pela cidade algumas vezes, porém se qualquer alarde. Ele vai estabelecer sua base na cidade de Cafarnaum, situada na região da Galileia, sempre depreciada e menosprezada pelos moradores abastados e soberbos da enriquecida Judéia, incluindo a casta sacerdotal judaica, com seu magnifico Templo, suntuosamente ornamentado pelo famigerado Herodes, o Grande, que destituído de qualquer senso moral ordena a morte de todos os meninos de dois anos para baixo no esforço inútil de matar o menino Jesus e cuja morte em decorrência de sua arrogância foi a de ser comido por bichos que brotaram de suas entranhas.
            Mas apesar de sua popularidade crescente poucos foram aqueles que verdadeiramente a compreenderam sua mensagem e adotaram-na como um novo estilo de vida. Na verdade, até mesmo aquele pequeno grupo seleto, os apóstolos, escolhidos pessoalmente por Jesus, apreenderam o valor e significado do Evangelho ensinado pelo Mestre. Por quase três anos o acompanharam em suas caminhadas, e em diversas ocasiões Jesus os ensinou particularmente, todavia, reincidentemente Ele teve que os corrigir com severidade, pois suas mentes e corações pouco havia absorvido dos princípios evangélicos exaustivamente ensinados por Ele. Essa triste realidade fica evidenciada quando empreende pela última vez uma subida à Jerusalém, e pelo caminho eles começam a discutir com veemência qual dentre eles seria o maior na hierarquia do novo Reino que estava por ser estabelecido por Jesus. Mal sabiam eles que na hora derradeira, um deles o trairia, outro o negaria três vezes, e com exceção de João, o mais jovem entre eles, o abandonariam à mercê de seus algozes na cruz.
            Passados mais de dois mil anos, esse mesmo Evangelho de Jesus, continua sendo mal compreendido pela maioria de seus ouvintes e são raros os que o manifestam na pratica diária de suas vidas. Como naqueles primeiros dias, ainda hoje as multidões são atraídas pela beleza da mensagem evangélica, mas poucos de fato estão dispostos a pagarem o preço da renúncia e da cruz.
            Como nos dias de Jesus as multidões têm suas próprias motivações hedonistas e materialistas às quais desejam satisfazê-las por meio do Evangelho, mas continuam rejeitando quaisquer propostas que se opõe às suas necessidades de autossatisfação.
            Nesses dias em que os evangélicos ampliaram em muito suas zonas de conforto, as exigências explicitamente contidas no bojo do Evangelho de Jesus, são esquecidas e lançadas imediatamente na lixeira de uma vida cristã insonsa. O evangelicalismo brasileiro desenvolveu um pseudo cristianismo em que são preservados a todo custo seu bem-estar e conforto. E não somente os fomentadores e operadores da apologética da prosperidade, mas a todos os segmentos do universo evangélico, que em maior ou menor grau, desenvolveram suas notas de rodapé do Evangelho, e se aferrenham a elas, inibindo neles próprios quaisquer disposição para um retorno aos paradoxos do Evangelho originalmente proclamado, ensinado e vivenciado por Jesus.
Ao lermos as páginas evangélicas da bíblia cristã, somos informados que a mensagem de Jesus haveria de produzir uma dupla reação: nos que cressem uma profusa alegria e nos que a rejeitassem um intenso ódio. Mas, esse pseudo cristianismo insonso proclamado a plenos pulmões e por todos os meios de comunicação, por ampla maioria dos grupos evangélicos que proliferam nos dias atuais, não produz reação alguma. Quando muito um aumento nos referidos róis de membros e em suas receitas financeiras, mas sem qualquer manifestação de amor intenso ou mudanças radicais nos estilos de vida de seus membros. Quando muito, tais ouvintes estão dispostos a inserirem em suas agendas alguns novos compromissos religiosos, mas nada que os obriguem a jogarem suas velhas agendas fora e iniciarem uma agenda totalmente nova. Esse pseudo cristianismo não exige renúncia e cruz, apenas um segmento na medida do possível da agenda pessoal e social de cada membro.
            Por esta razão creio ser oportuno e necessário voltarmos aos textos evangélicos e torna-los espelhos para podermos fazer uma autorreflexão daquilo que realmente somos e daquilo que Jesus propõe que sejamos.
            A escolha proposital de iniciarmos pelo espelho das chamadas “Bem-Aventuranças”, a partir do texto produzido pelo evangelista Mateus, não é sem razão. Cada uma dessas sentenças paradoxais pronunciadas por Jesus, obrigatoriamente, deve nos arremessar a uma profunda crise de fé e prática; cada uma delas deve nos constranger e nos fazer corar de vergonha.
            Antes de usufruirmos das profusas alegrias prometida em cada uma delas, é necessário e indispensável que experimentemos um genuíno arrependimento e uma profunda contrição pelos nossos pecados, manifestados explicitamente em nossas permanentes contradições, entre o que somos e o que deveríamos ser como discípulos de Jesus Cristo. São raros entre nós aqueles que experimentam essa profusão de alegria, porque são raros entre nós aqueles que experimentam uma contrição genuína e um arrependimento verdadeiro.
            Precisamos urgentemente, mais do que qualquer outra coisa, mergulharmos por inteiro nos paradoxos do Evangelho, expresso em cada uma dessas Bem-Aventuranças, para que morrendo em nós mesmos, sejamos vivificados para uma vida cristã autentica. Precisamos ser desconstruídos completamente por cada uma dessas Bem-Aventuranças, para que sejamos reconstruídos e venhamos experimentar a verdadeira e permanente felicidade!

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Guedes, Ivan Pereira
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Referência Bibliográfica
CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado. São Paulo: ed. Milenium, 1985. [v. 1].
CARSON, D. A., MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.
DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.
EARLE, Ralph. O Evangelho Segundo Mateus. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. [Comentário Bíblico Beacon].
HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.
HENDRIKSEN, William. Mateus, v.1 São Paulo: Cultura Cristã, 2001. [Comentário do Novo Testamento].
JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus: pesquisa de história econômico-social no período neotestamentário. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1983.

STOTT, John R. A mensagem do Sermão do Monte. Tradução: Yolanda M. Krievin. São Paulo: ABU Editora, 1989, 2ª ed. Série: A Bíblia Fala Hoje. [Título anterior: Contracultura Cristã]. 

Viajando no Evangelho Segundo Mateus (1.18-25)

A Concepção e Nascimento do Rei
            Mateus nos apresentou a linhagem messiânica de Jesus e fez questão de incluir algumas mulheres, o que não era comum, bem como estrangeiros, o que era ainda mais controverso, pois deseja realçar que o novo Rei e no seu Reino não haveria qualquer descriminação ou distinção, pois seus cidadãos viriam de todas as tribos, povos e raças e todos seriam tratados como cidadãos de primeira classe.
            Vimos também que Mateus modifica o refrão da genealogia "que gerou...que gerou...” que se aplica a todos os descendentes, mas quando chega em José ele diz “marido de Maria, da qual nasceu Jesus” indicando assim que José não teve participação ativa na geração da criança.
            Agora o evangelista vai nos esclarecer alguns detalhes sobre o nascimento de Jesus do ponto de vista de José: como ele tomou conhecimento destes acontecimentos e como ele reagiu diante desta situação. E aqui temos um diferencial em relação às narrativas de Lucas, pois predomina a figura de José enquanto Maria fica mais passiva no desenvolver desta pequena perícope.
            Continuaremos nossa viagem utilizando o mesmo formato de roteiro: na coluna da sua esquerda teremos o texto evangélico e na coluna da sua direita alguns comentários sucintos que nos possibilitam uma compreensão melhor do registro feito por Mateus.

Boa viagem!

Evangelho Segundo Mateus (NVI)
Capítulo 1.18-25
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Síntese da Perícope: O Nascimento do Rei
Jesus para se tornar nosso representante legitimo necessitava entrar neste mundo da mesma forma que todas as pessoas, isto é, por nascimento. Entre milhares coube a José e Maria (ambos descendentes da linhagem davídica) o privilégio de serem os meios para que esse nascimento torna-se realidade. A genealogia termina com a “não” paternidade de José e agora esclarece os leitores do “porque”. “Antes de coabitar com José, pois estavam noivos, Maria achou-se gravida de um filho por meio do Espírito Santo”. Sendo um homem justo (piedoso) e depois de ser esclarecido através de sonho de que Deus está no controle desses acontecimentos, não hesita mais em tomar Maria como esposa e quando a criança nasce dá-lhe o nome de Jesus, conforme havia sido orientado. Mateus vai interpretar as palavras de Isaias (7.14) como se cumprindo no nascimento de Jesus. O restante da mensagem evangélica de salvação do pecador fica dependente do nascimento sobrenatural de Jesus!
18 Foi assim o nascimento (Lucas 1.27-38) de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo.
19 Por ser José, seu marido, um homem justo [Gn 6.9; Sl 112.4-5; Mc 6.20; Lc 2.25; Atos 10.22], e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente.
20 Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e disse: José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo.
21 Ela dará à luz um filho, e você [José] deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.
22 Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta:
23 “A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel”, que significa “Deus conosco”.
24 Ao acordar, José fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu Maria como sua esposa.
25 Mas não teve [ele] relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele [José] lhe pôs o nome de Jesus.

Além de Jesus o personagem relevante na perícope é José, ficando Maria em segundo plano. Mesmo não sendo o pai biológico de Jesus, antes de a mariologia ser estabelecida, a figura de José era diretamente relacionada com o menino. Ele é identificado como “justo” uma característica do crente do AT. Mateus sabe que seus leitores judeus se identificam muito mais com José [o direito legal ao trono de Davi] do que com Maria e além da sua genealogia o evangelista destaca o fato de que Deus falou diretamente com José por meio de seu mensageiro angelical. O carpinteiro José é um instrumento de Deus, assim como Maria, na realização de seu propósito salvador através de Jesus.
O “noivado” de José e Maria, diferente da nossa cultura ocidental moderna, era tratado como um “contrato de casamento”, quão e seria efetivado na noite de núpcias. Por está razão José preocupa-se em dar cobertura à situação de gravidez de Maria, pois ela poderia ser condenada como adultera e ser apedrejada, conforme a Lei estabelecida.
Através de um mensageiro angelical Deus tranquiliza o coração angustiado de José. Ele é lembrado das profecias messiânicas, que agora haverão de serem cumpridas na vida da criança que está sendo gerada em Maria. O menino é o “Emanuel” (Deus conosco), a entrada definitiva de Deus na humanidade (encarnação).
A partir deste ponto José não tem mais nenhuma dúvida do que Deus esta realizando através de suas vidas. Recebe Maria como sua esposa e tem o privilégio de colocar o nome na criança – Jesus (Jeová é a salvação).
Mateus utiliza-se da profecia de Isaías (7.14). A discussão se faz em relação ao significado da palavra hebraica “almah”. Os que rejeitam o nascimento virginal a traduzem por “mulher jovem” e os que defendem a traduzem por “virgem”, o que coaduna efetivamente com o contexto evangélico. Além da questão linguística o debate envolve a questão da fé, de maneira que milhares de páginas não alteraram as opiniões de ambos os lados da questão.
Emanuel – O nome nas narrativas bíblicas vai muito além de uma mera identificação pessoal, ele indica o caráter e o propósito para o qual Deus trouxe à vida. Isaías relaciona o Emanuel com “maravilhoso, conselheiro, Deu forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz” (9.6). O evangelista João vai abrir sua narrativa com uma declaração semelhante: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e verdade, e vimos sua glória como do unigênito do Pai” (1.14). Para o apóstolo Paulo Jesus é Deus “manifestado na carne” (1Tm 3.16) e “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Nenhum judeu e particularmente Paulo “fariseu de fariseu” e, portanto monoteísta radical faria tais declarações se não estivesse plenamente convencido de que Jesus Cristo é o “Deus conosco” e o cumprimento das profecias messiânicas.
O nascimento virginal de Jesus é a única forma de resolver a questão do pecado humano. Para nos salvar precisávamos de um representante plenamente humano, mas também sem pecado – somente Jesus Cristo cumpre essas duas exigências – ele é plenamente humano, pois nasceu de Maria e plenamente divino, pois foi fecundado pelo Espírito Santo, sem a participação masculina e desta forma livre da natureza adâmica pecaminosa.
Aqui temos duas mensagens proféticas: a esperança “ele será chamado pelo nome de Emanuel [Deus conosco]” e a realização “lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”.
Diferentemente de Lucas que nos trás detalhes sobre como Jesus nasceu, Mateus conclui sua perícope de forma curta e direta, mas não sem conteúdo. “ele [José] não a [Maria] conheceu [relacionamento sexual/conjugal] até que ela deu à luz um filho.” Em nenhum momento o texto oferece qualquer indicação que José e Maria não conviveram como um casal normal após o nascimento de Jesus. A perpetuidade da virgindade de Maria é uma ideia forjada fora dos textos evangélicos e, portanto desautorizada e espúria. 
E ele [José] lhe pôs o nome de Jesus: isso é acrescentado para uma vez mais revelar a obediência de José à ordem recebida através do anjo. E Jesus era reconhecido por todos os conhecidos como o filho de José o carpinteiro (Mt 13.55; João 6.42). 

Conclusão Geral do Capítulo 1
v  A narrativa de Mateus é prosaica e simples, destituída de tom poético e sem qualquer esforço em criar um ambiente fantástico ou mítico. Fala de eventos extraordinários sem qualquer estardalhaço. Sua narrativa é histórica, simples e objetiva de maneira que seu conteúdo comunica o que é necessário e deixa de lado o que pode vir a ser subterfugio informativo.
v  Mateus não informa datas e lugares específicos dos acontecimentos narrados. Os personagens são apresentados sem qualquer explicação previa, como se todos eles fossem considerados familiares para seus leitores. Isso nos leva a pensar que escreve pensando nos leitores cristãos judeus, cujos fatos, pessoas e lugares mencionados lhes são bem conhecidos. Ele parece escrever como que para relembrar e registrar mais do que para informar seus leitores.
v  Desde seus dois primeiros capítulos, Mateus vai tecendo sua narrativa de maneira a integrar os fatos relacionados a Jesus e as profecias contidas no Primeiro Testamento, pois seu objetivo e demonstrar a messianidade de Jesus. Ele tem o cuidado de nos informar que esses eventos, por ele registrados, aconteceram para o propósito (além de todos os outros fins) de cumprir as mensagens dos profetas do Primeiro Testamento. O Segundo Testamento nasceu a partir do Primeiro, de maneira que o Evangelho está contido na Lei. A antiga dispensação (Lei) é apenas uma preparação para a nova dispensação (Graça). A conclusão de Mateus é que o verdadeiro judeu (piedoso/crente) à luz de tudo que envolveu Jesus se tornará um cristão.
v  Ainda que Mateus não explicite datas ele oferece fortes indícios da época histórica que os eventos ocorreram. As referências a Herodes e Arquelau, nos permite precisar com certa convicção o tempo do nascimento de Jesus Cristo. Ele nasceu durante a vida de Herodes o Grande, e não muito antes de sua morte. Herodes morreu no ano de Roma 750 pouco antes da páscoa (cf. Josephus, Ant., b. 17, ch. 8, sec. 1; ib., b.17, ch. 9, sec. 3). Isso foi verificado calculando o eclipse da lua, que aconteceu pouco antes da morte dele; (Jos., Ant., b. 17, ch. 6, sec. 4. Ideler, Handb. of Chronol., vol. ii, p. 391 sq.) Se relacionarmos o tempo da circuncisão, a visita dos Magos do Oriente, a fuga para o Egito, e o tempo da morte de Herodes, conclui-se que o nascimento de Cristo não pode ser fixado muito depois do outono do ano romano de 749.



Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
me.ivanguedes@gmail.com
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