terça-feira, 26 de julho de 2016

O HOMEM QUE QUERIA SABER MAIS (Reflexão)


Já era noite, pois os últimos raios de claridade haviam desaparecido. Desde alguns dias vinha lutando internamente com a possibilidade de procura-lo, mas sabia que as implicações disto seriam grandes. Quando a notícia se espalhasse teria que dar muitas explicações

e certamente haveria de conviver com muitos olhares de desconfiança, afinal era muito conhecido e ocupava uma posição proeminente na principal Sinagoga de Jerusalém.
Pensara em conversar com a esposa ou com algum de seus amigos mais chegados, para saber a opinião deles e assim tomar uma decisão mais abalizada, todavia sabia que a resistência seria muito grande e por fim resolvera que a decisão seria apenas sua.
Ficou sabendo que Ele havia subido e que passaria a Páscoa com os seus amigos em Jerusalém. Certamente esta seria a melhor oportunidade para encontra-lo. Mas como no ano anterior, os dias se passaram tão rapidamente e agora sabe que logo pela manhã Ele partiria novamente, pois seu ministério era itinerante, portanto, chegara a hora de tomar uma decisão: iria ou ficaria – então se levantou e foi.
O caminho de sua casa até onde Ele estava hospedado não era longo, apenas algumas ruas, mas naquele momento cada passo seu parecia demorar um quilometro. Sua mente estava agitada como nunca antes. Havia tantas questões a serem debatidas, mas seleciona-las e organiza-las por ordem de importância tinha lhe tomado muito tempo nestes últimos dias, e cada vez que repensava a ordem das questões se alteravam. Por fim resolvera que o primeiro assunto que abordaria seria a respeito do Reino de Deus.
Desde sua infância ele havia recebido toda a orientação possível sobre a religião judaica. Aprendera, como todos os meninos, a ler e escrever tendo como livro texto a Torá. Havia memorizado os textos principais e todas as orações diárias o qual recitava ao menos três vezes ao dia como havia sido orientado a fazer, o que fazia não apenas como obrigação religiosa, mas com satisfação da alma.
Enquanto caminhava lembrou-se com alegria de seu “Bar-Mitzvá”[1] que marcava sua transição para a vida adulta. Os anos se passaram rapidamente e agora já na casa dos cinquenta anos, enquanto caminha pela noite, seu coração dispara novamente, como naquele dia da sua primeira leitura da Torá na Sinagoga.
Finalmente chegara à porta da casa onde o Ele estava. Em fração de segundos repensa a razão que o levava a procura-lo. Por todos anos de sua vida sempre procurou ser uma pessoa melhor. Sempre levara a sério as prescrições da religião de seus pais e que também havia tomado para si. Observava com zelo ardoroso o calendário religioso e nunca, até mesmo nos momentos mais difíceis, como aquele em que debilitado por uma enfermidade, deixou de oferecer seus sacrifícios conforme a Lei de Moisés ordenava.
Por causa de seu zelo e conhecimento adquirido da Torá foi convidado, ainda muito jovem, a fazer parte da direção da Sinagoga. Com o passar dos anos, naturalmente, tornou-se um de seus principais chefes. Em muitas ocasiões leu e expôs as Escrituras de tal maneira que seus ouvintes ficavam absorvendo atentos em completo silêncio. Por causa disso muitos convites eram feitos para que visitasse outras Sinagogas de Jerusalém e arredores.
Sempre procurou ser um bom marido, assim também um bom pai. Sabia que os olhares de seus vizinhos, amigos e de todos os que faziam negócios com ele estavam sempre atentos, por isso sempre honrou sua palavra e era conhecido pela sua honestidade nos negócios.
Mas apesar de tudo isso, de toda sua dedicação religiosa e de uma vida honrada, em muitas ocasiões seu coração se perturbava e sua alma se inquietava, pois não podia ter a plena certeza, a total garantia de que entraria no Reino de Deus. E esta era a razão que o levara a sair à noite e se dirigir até aquela casa onde Jesus estava.
Bateu na porta e rapidamente alguém abriu e o mandou entrar. Seus olhos logo localizaram Jesus, que calmamente falava com as pessoas ali presentes. Sua voz era suave, porém, transmitiam uma autoridade tão grande que impactava a todos os que o ouviam. Encerrando sua argumentação levantou os olhos e convidou Nicodemos a se aproximar. As pessoas abriram espaço para que ele pudesse ficar mais próximo do Mestre. Assentou-se e fez a melhor saudação possível a uma pessoa: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”.
Nicodemos havia se preparado para muitas coisas, mas não para as palavras de Jesus. Em vez de retribuir a gentileza de suas palavras, Jesus lança lhe uma afirmação categórica: “Em verdade em verdade te digo, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.
Por alguns segundos ele fica ali, pensando nas palavras de Jesus, o qual não fazia sentido algum. Então formula seu questionamento: “Como pode alguém nascer novamente, sendo já velho, pode por ventura entrar novamente no ventre de sua mãe e nascer novamente..
Diante de seu questionamento, Jesus responde: “Se você não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus”. Nicodemos ficou ali, pensando, mas não conseguia compreender o que Jesus estava dizendo. Então Jesus, como que percebendo a angustia de seu coração continua a falar; fala do amor imensurável de Deus que enviou Seu unigênito Filho para que morresse em lugar dos pecadores; fala da necessidade de se crer no Filho, que veio não para condenar, mas para salvar os que estavam perdidos. Jesus concluiu suas palavras afirmando que os que praticam a verdade não precisam temer a luz, pois suas obras são feitas em Deus.
Nicodemos ouviu tudo com uma atenção infantil, não querendo perder uma única palavra de Jesus. Agradeceu a atenção do Mestre, levantou-se e saiu.
Enquanto retornava para sua casa, ele percebeu que aquelas palavras de Jesus começavam a fazer sentindo e na mesma medida o seu coração começava a ser tomado por uma alegria incontida. Uma paz começou a invadir sua alma, de maneira que toda ansiedade, toda a angustia, todas as apreensões, foram apaziguadas – algo completamente novo estava acontecendo – seria isto que Jesus chamou de Novo Nascimento.
Quando Nicodemos entrou em sua casa, ele tinha plena certeza, não era mais o mesmo Nicodemos que havia saído para encontrar-se com Jesus. Ele agora era uma nova pessoa. O Espírito Santo produziu em seu interior um renascimento!!
Então Nicodemos abraçou sua esposa, mandou chamar seus filhos e todos que faziam parte de sua casa...e começou a contar-lhes tudo quanto havia acontecido com ele....

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

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[1] Ao completar 13 anos, o jovem atinge a maioridade religiosa judaica. Para marcar esta passagem, é celebrado o Bar-Mitzvá, uma cerimônia que ressalta a importância de cada um dos judeus na corrente ancestral do judaísmo. É nessa data que o jovem, pela primeira vez, coloca os Tefilin e é chamado para ler na Torá.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A T O S - Os discursos e/ou Pregações

A narrativa de Atos é intercalada por vários esboços de discursos[1] e/ou pregações, perfazendo aproximadamente um terço do livro, sendo que a maioria está relacionada diretamente a Pedro e Paulo. Ainda que haja muita discussão se de fato foram pronunciados pelos personagens ou se Lucas apenas coloca estes discursos em seus lábios,[2] há um consenso de que estes discursos fornecem uma excelente trilha que apontam o imenso caminho percorrido pela pregação e ensino apostólico.
 Isto é especialmente verdadeiro em relação aos discursos de Pedro, que tranquilamente poderiam ser rastreados até sua fonte palestinense primaria. Contêm o que parece ser alguns dos primitivos títulos de Jesus, por exemplo, "Servo” de Deus (Atos 3:13, 26), e evita por exemplo o título "Filho de Deus”; não relaciona perdão, como Paulo faz, com a morte de Jesus. É possível, por outro lado, encontrar um padrão comum da pregação apostólica nesses discursos, que se repete, no discurso de Paulo na Antioquia da Pisídia (13: 17-41), e ocasionalmente pode ser vislumbrada nas epístolas de Paulo onde a mensagem está mais desenvolvida.
Este padrão consiste de uma série de declarações sobre Jesus e ligado diretamente a um apelo à conversão:
Jesus de Nazaré é o Messias, o Cristo, enviados por Deus,
             como prometido nas Escrituras, como predito pelos profetas,
             para o perdão dos pecados, para salvação do mundo;
Ele foi rejeitado pelo povo, condenado pelas autoridades;
             Ele sofreu, foi crucificado, morreu e foi sepultado
Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos e o elevou às alturas
             e ele vai voltar um dia para nós, em glória.
Em resposta, as pessoas devem se arrepender, crer, ser batizada,
receber o Espírito Santo e juntar-se à comunidade dos crentes (Igreja).
Há boas razões para pensar que esse modelo representa as principais linhas da pregação apostólica daqueles primeiros dias, embora deva ter tido muitas variações individuais e sofreu um processo contínuo de desenvolvimento, como pode ser verificado nos escritos posteriores de I Pedro e nas epístolas paulinas. Os discursos de Atos podem, portanto, ser considerado não como um registro literal e integral das palavras faladas em várias ocasiões, mas como uma série de breves sínteses[3] que geralmente dão uma ideia precisa dos principais pontos da pregação apostólica, numa fase precoce; estes resumos foram devidamente editorados seja pelo próprio Lucas ou pelo editor da fonte utilizada por ele, que coincidirá com a situação particular em que estão colocados.
A importância deste ponto de vista dos discursos, na primeira metade de Atos reside no fato de que, com essas provas da pregação pré-paulinas da Igreja é possível estimar um justo processo de desenvolvimento, que teve lugar na mensagem proclamada entre os primeiros dias da igreja de Jerusalém e do encerramento do primeiro século.
Os discursos relacionados a Paulo na segunda metade de Atos também são de grande importância. À primeira vista são estranhamente diferentes do ensino epistolar de Paulo, pois tem pouco a dizer sobre os grandes temas doutrinários “paulinos" de Fé e Obras e da união com Cristo, que são tão proeminentes nas epístolas (cf. Atos 13:39, 20:21, 24), e o Paulo de Atos utiliza-se de muitas expressões que não se repetem nas epístolas (por exemplo, Atos 20:28, 26:23).
Esta divergência na verdade tem se constituído na base para que alguns estudiosos rejeitem a autoria lucana de Atos. Deve ser lembrado, no entanto, que as epístolas de Paulo foram escritas às pessoas e/ou comunidades que estavam afinadas com o ensino dele, e o ensino teológico nelas inseridos visam corrigir as dificuldades de interpretação que surgiram ou para ampliar e aprofundar os conceitos anteriormente ensinados.
Em Atos, por outro lado, Lucas parece interessado em utilizar-se dos resumos da pregação de Paulo para ilustrar a forma diferenciada de abordagens para se alcançar os mais diversos públicos, que estavam ouvindo a mensagem cristã, pela primeira vez.
Os discursos dos Atos podem ser divididos em querimático-missionários (2.14-36; 3.12-26; 4.8-12; 5.29-32; 10.34-43); proféticos (7.2-54); apologéticos (22.1-21; 24.10-21; 26.2-23), resolutivos (15.7-11, 13-21) ou de gênero composto (20.18-35).

Conclusão
Assim sendo, estes discursos constituem um artifício literário por meio do qual o autor expõe suas ideias, desenvolve seu ensinamento, fortalece a fé do leitor. Distribuídos harmonicamente no texto, representam um momento de pausa e reflexão no desenvolvimento dos acontecimentos, ajudando o leitor a aprofundar o conteúdo das partes narrativas. Em suas formas concisas, terminam sempre no momento certo, quando o autor já acabou de manifestar seu pensamento. Não são, pois, dirigidos aos personagens que aparecem no relato, mas são oferecidos por Lucas ao leitor como explicações úteis para entender sua mensagem.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
BERGER, Klaus. As formas literárias do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1998.
EARLE, Ralph. Comentário Bíblico Beacon, v.7. São Paulo: CPAD, 2006.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v. 10. Rio de Janeiro: JUERP, 2ª ed., 1987.



[1] “Os discursos dos evangelhos distinguem-se claramente dos de Atos, embora tenham muitos pontos em comum provenientes da tradição retórica. Na tradição sinótica os discursos são composições temáticas (reino de Deus, juízo vindouro, ensinos protréptico). Em Atos, porém, os discursos estão via de regra, em função de uma única finalidade redacional” (BERGER, 1998, p. 71).
[2]  “Dificilmente será razoável presumir que o autor de Atos relatou literalmente o que foi dito em cada discurso que inseriu nesse seu livro. Contudo, ao mesmo tempo, não devemos acusar Lucas de inventar tudo o que colocou na boca de seus personagens. Ele possuía materiais primitivos de pregações feitas na igreja, que podia usar para construir os sermões” (SMITH, 1987, p. 20). Selwyn em seu excelente comentário da Primeira Epístola de Pedro, onde faz um paralelo entre os sermões em Atos e o texto da epístola conclui que mediante a ausência de ideias teológicas avançadas “nos primeiros discursos de Pedro colabora fortemente para o uso das fontes documentais primitivas” e ele faz referência ainda ao “estilo semita áspero e à doutrina primitiva que marcam partes dos discursos de Pedro”. (Apud, EARLE, 2006, p. 220).  
[3] “Outra tendência que havia entre os historiadores contemporâneos, da qual Lucas parece estar livre, era alongar um discurso, que, quando pronunciado originalmente, podia ter sido bem curto. Mesmo o discurso mais longo de Atos pode não representar tudo o que foi dito na ocasião. Lucas parece resumir, em vez de expandir a mensagem” (SMITH, 1987, p. 20).

A T O S - Objetivo do Autor

Perseguir o propósito do autor é um desafio a que todo estudante de texto, incluindo a Bíblia precisa perseverar. A recompensa é que uma vez descoberto, haveremos de compreender e aplicar muito melhor sua mensagem.
Espera-se de toda obra séria que tenha um propósito. Os escritores bíblicos não escreveram aleatoriamente e o Inspirador deles não perderia tempo em comunicar uma mensagem desprovida de objetivo. Deste modo, os estudiosos têm se debruçado ao longo destes séculos para encontrarem o propósito de Lucas ao escrever – Atos - seu segundo volume. Vejamos alguns destes esforços:
a) Com base no título Atos dos Apóstolos” muitos tem deduzido que o escritor pretendia registrar as ações daquele primeiro grupo apostólico. Entretanto, ao examinar-se o conteúdo do livro fica nítido que Lucas não tinha a intenção de acompanhar o desempenho especifico do grupo apostólico. Ainda que em várias ocasiões faça citações deles de forma coletiva, apenas alguns são mencionados pessoalmente (Tiago, João dos demais nada ficamos sabemos) e se destacam num primeiro momento a figura de Pedro e na metade final a pessoa e ações de Paulo. Mesmo nestes dois casos as suas histórias são interrompidas em momentos cruciais, revelando que o foco de Lucas não é a vida dos apóstolos.
b) Muitos estudiosos se empolgaram com certa abundância de referências que Lucas faz da pessoa do Espírito Santo. E olhando pelo número de citações à terceira Pessoa da Trindade realmente há uma certa lógica. Todavia, falta um Sitz im Leben (uma condição de vida) para que Lucas se dispusesse a escrever uma obra sobre o Espírito Santo. O Pentecostes havia ocorrido em seus dias, de modo que nem os primeiros cristãos ou seus opositores estavam levantando qualquer dúvida ou questionamento sobre a pessoa e obra do Espírito e sendo assim Lucas não estaria respondendo a qualquer anseio premente de seus leitores primários, o que seria no mínimo um grande equívoco dele. Fica mais evidente que o Espírito não era o foco principal de Atos, quando comparamos a forma com que Lucas apresenta Jesus em seu primeiro volume (evangelho). Ainda que na primeira parte o Espírito seja mencionado em vários momentos da narrativa, depois de 21.11 ele volta a ser mencionado apenas em 28.25, perfazendo um hiato de oito capítulos onde Lucas não faz uma referência ao Espírito, o que contrariaria todo o objetivo do livro se fosse esse o caso – mas não é. Evidentemente não se quer com isso minimizar a extraordinária obra do Espírito Santo, pois nada do que acontecesse em cada página de Atos (e de todos os livros da Bíblia) ocorrem sem a participação efetiva da terceira Pessoa da Trindade. Os diversos movimentos carismáticos e dispensacionalistas sempre incentivaram a se ver um “ministério distinto” do Espírito, mas nem Lucas em Atos ou qualquer outro livro neotestamentário nos autoriza a separar o que a Trindade uniu. O Espírito vem para dar continuidade à obra iniciada e realizada por Cristo na cruz. E ainda que somássemos tudo que Lucas registra em Atos sobre o Espírito, ela seria uma porção mínima da Obra portentosa realizado pelo Espírito Santo na História da Igreja.
c) Como já citei em artigo anterior, os mentores da chamada Escola de Tubingen (Baur) propuseram que Lucas tinha como objetivo reconciliar ou ao menos apaziguar os conflitos existentes entre os expoentes de Pedro, judeus convertidos, e os de Paulo, gentios convertidos. Para isto lançam a data do livro o mais longe possível (98-138 d.C.). Hoje são poucos os que se quer mantêm esta preposição como uma possibilidade. Os debates que ocorrem em Atos são protagonizados inicialmente pelos grupos judaizantes e helenistas e os mediadores foram os próprios apóstolos que resolveram elegendo os diáconos. Depois temos o registro do grande Concílio de Jerusalém e as figuras centrais são Tiago e Paulo envolvendo a questão da inclusão dos gentios e que foi resolvida pela decisão da Assembleia a favor da tese de Paulo e Barnabé.
d) Outra proposta praticamente abandonada, e que depende totalmente de uma data muito avançada, é de que o autor escreve para combater as ideias heréticas de Marcião, que negava os escritos que considerava “judaicos” e estabeleceu o primeiro cânon neotestamentário onde continha apenas o evangelho de Lucas e as cartas paulinas. Assim, os cristãos “ortodoxos” criaram Atos, escrito por Lucas, onde Paulo aparentemente fica subordinado aos doze, inviabilizando a tese maior de Marcião. É totalmente descabida e desnecessária tais conjecturas. Exercícios acadêmicos inócuos e estéreis de qualquer contribuição séria e benéfica para os estudantes das Escrituras. Estão muito mais próximos das heresias de Marcião do que das verdades bíblicas.
e) Um propósito muito interessante é que Lucas deseja demonstrar o triunfo do cristianismo em relação ao judaísmo. O fato de que os judeus tinham, e continua tendo, um nacionalismo exacerbado fez com que tentassem fazer do cristianismo mais uma seita do já diversificado judaísmo. Para eles era até admissível que os gentios adentrassem ao cristianismo, mas desde que subordinados às leis cerimoniais judaicas. Todos os relatos de conversam iniciais são pessoas ligadas diretamente ao judaísmo: Estevão e Felipe são judeus helenistas, Cornélio e o etíope são prosélitos do judaísmo. Somente após a viagem missionária de Paulo e a convocação do grande concílio de Jerusalém é que os gentios foram recebidos em pé de igualdade com os judeus. Mas a ruptura definitiva veio quando os próprios judeus começaram a abandonar os ritos e cerimoniais do judaísmo. Isto foi um golpe duro demais para o espírito particularista e isolacionista que havia moldado o pensamento judaico, principalmente após o exílio babilônico e seu retorno nos dias de Esdras (458 a.C.) e Neemias (444 a.C.). “Em sua obra de dois volumes – Lucas-Atos – Lucas nos traça o seu desenvolvimento. Quando escreveu, o Cristianismo já estava ganhando o mundo gentílico, e os judeus já se sentiam assoberbados com as conclusões do Cristianismo, do qual por fim se viram obrigados a afastar. No seu Evangelho, Lucas mostrou que o caráter de que se achava revestido o movimento cristão provinha do próprio Jesus; não se tratava de forma alguma duma perversão efetuada por Paulo ou por qualquer outro apóstolo. Jesus jamais tivera em mente um movimento que se expandisse apenas dentro do judaísmo nacionalista. Visava, sim, a uma nova humanidade que abarcaria judeus e gentios. Nos Atos, Lucas nos mostra a expansão desse intento de Jesus, e nos fala do seu glorioso triunfo na nclusão do gentio e da lament[áveltragédia que culminou na auto-exclusão do judeu”.
Conclusão
Além destas, há várias outras tentativas de se definir o propósito principal de Lucas ao escrever seu segundo volume. Entretanto, não podemos perder de vista que Lucas escreve uma história, ou seja, seu esforço é de informar seus leitores acerca dos diversos acontecimentos que já haviam ocorrido. Seu contato com as mais diversas testemunhas oculares destes fatos, bem como seu contato com as comunidades iniciais de Jerusalém e Antioquia devem tê-lo empolgado e motivado a organizar este precioso material de Atos.
Assim, é preciso vermos em seu trabalho ao menos dois significados gerais: o significado destes eventos naquele tempo e contexto, e a repercussão destes eventos nos seus próprios dias.

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Guedes, Ivan Pereira
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quarta-feira, 20 de julho de 2016

APOCALIPSE - Comentário (1.1-3)

Revelação de Jesus Cristo
            Antes de qualquer outra coisa é preciso corrigir um grave erro no que concerne ao estudo deste precioso último livro bíblico. O assunto central do Apocalipse, bem como de toda a bíblia, é Jesus Cristo. Parece óbvio, todavia nestes últimos dias, e creio que em outras épocas também, estuda-se a Bíblia pela ótica antropocêntrica, como se o ser humano fosse o assunto principal. Aqui particularmente, pensa-se que a Igreja ou os Cristãos ou mesmo a Humanidade é o centro dos acontecimentos – não é. O começo, o meio e o fim da narrativa deste último livro são e sempre foi Jesus Cristo. E o autor deixa claro isto desde a primeira linha até a última.

Prólogo (1:1-3)
v.1 – A revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos o que deve acontecer em breve. Ele fez saber, enviando o seu anjo ao seu servo João,
A revelação de Jesus Cristo” - Apocalipse = Apocalupsis (grego),[1] é a revelação do plano de Deus para o mundo, especialmente a seus servos, a Igreja, por meio de Jesus Cristo. Ela nos mostra o que se passa nos bastidores, no céu. O texto grego pode dar a ideia de uma revelação da pessoa de Jesus Cristo,[2] mas no contexto descrito aqui Deus deu a revelação a ou por meio de Jesus para mostrar aos seus servos o que deve acontecer em breve (cf. 22.16).
O termo Apocalupsis (apocalipse/revelação) também é usado no Novo Testamento para se referir à Segunda Vinda, apontando para a remoção de tudo, que no tempo presente, impede a nossa visão do Cristo glorificado (1 Co 1.7; 2 Ts 1.7; 1 Pe 1.7, 13; 4.13), e Paulo declara que recebeu a revelação do evangelho do próprio Jesus Cristo, [já glorificado] (Gl 1.12). Apocalipse nos proporciona, como em nenhum outro lugar no NT, uma visão incomparável de Jesus Cristo em todo o Seu esplendor e glória celestial, que somente será contemplado, por toda humanidade, quando de Seu retorno glorioso.
que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos” - Este livro tem a reivindicação mais completa e explícita da autoria divina do que qualquer outro livro da Bíblia, portanto, se foi João, o apóstolo, que escreveu isto é de importância secundaria. O autor é Deus, Deus deu a Jesus, assim como ele dá a Jesus o livro mais tarde (cf. Ap 5.7). Foi escrito para seus servos, que são todos os cristãos em todas as épocas. A palavra grega para “servos” significa “escravos”. Servo é uma expressão comum para os cristãos em Apocalipse, (cf. Ap. 1.6; 2.20; 6.11; 7.3 e 7.15 – NIV). Servo, ou para servir é usado 19 vezes ao todo. O livro foi escrito para os servos de Deus, isto é, aos seus santos para lhes revelar o que deve acontecer em breve de modo que não devem ser pegos de surpresa pelos acontecimentos mundiais e/ou perseguições em que aparentemente os inimigos de Cristo e Seu Evangelho pareçam triunfarem. Em Ap 22.16 o próprio Cristo declara: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas”, veja que está no plural. Finalmente, o último verso do livro diz: "A graça do Senhor Jesus seja com todos. Amém”. Outras expressões usadas como sinônimos de povo de Deus são irmãos e santos. Aqueles que servem a Deus na terra também irão servi-lo no céu (Ap 1.6; 5.10; 7.15; 22.3).
o que deve acontecer em breve” - "uma crise iminente", ou seja, “'as coisas que devem acontecer em breve". Comentaristas exegéticos entendem que a palavra grega para "em breve" (tachos), bem como sua repetição no final do livro (Ap 22.7, 12, 20) não significa 'rapidamente', mas significa 'logo', 'em breve', ou seja, 'o tempo está próximo"(v.3).[3] A ideia é de “promessa” e “espera”, de maneira que João faz a indicação de proximidade com o objetivo de consolar e confortar. Por outro lado, também está implícito nesta expressão a eminência da ação divina, que certamente se cumprira pois nada e ninguém pode impedi-la ou mesmo retardá-la. E por fim também traz a ideia de que esta ação divina pode acontecer de forma repentina e inesperada (cf. Ap 3.3; 16.15) e nos textos evangélicos (cf Mt 24.43). Esta visão do que deve acontecer em breve é pela perspectiva do céu, portanto, proporciona uma visão muito mais ampla sobre os acontecimentos que serão narrados no livro, uma vez que Deus, que é atemporal, vê todas as coisas como de fato serão, enquanto nós vemos apenas os instantâneos limitados pela nossa ótica temporal. No Apocalipse, como em todo NT, os cristãos são convidados e estimulados a viverem na expectativa da consumação final de todas as coisas, como se fossem acontecer hoje “Estai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo” (Mc 13.33); mas aqueles que se deixam moldar por este mundo dizem “onde está a promessa da sua vinda?”, demonstrando sua incredulidade.
Ele fez saber, enviando o seu anjo ao seu servo João” – Deus é a origem desta Revelação, que a transmite a Jesus, de maneira que o anjo e João são os instrumentos de Jesus para que esta revelação chegue diretamente às comunidades cristãs e particularmente a cada cristão em todos os lugares e em todo o tempo.
É importante para uma compreensão correta do texto, entender o papel do anjo e de João. O escritor quer deixar bem claro que como na Antiga Dispensação (AT) os anjos estavam à serviço de Deus, agora na Nova Dispensação (NT) os anjos estão submetidos a Cristo (cf. 1.16; 4.9-10; 5.8; etc...) e são colocados como “companheiros de serviço” dos cristãos. João aqui e no transcorrer do livro é o receptor humano da revelação e por isso recebe a ordem de “escrever”, ou seja, de registrar as coisas que viu e ouviu (cf. 1.11,19; 14.13; 19.9; etc), de maneira que, João se identifica com os profetas do AT (cf. 19.10; 22.9). Assim, com o anjo e com João como portadores da mensagem temos a representação das duas fases da “revelação de Jesus Cristo”, a que ocorreu no AT por meio dos anjos e a que, a partir do NT, continua acontecendo por meio dos crentes e das igrejas. Cada vez que a comunidade cristã se reúne a “revelação de Jesus Cristo” acontece (cf. 1.10; 22.16).
A expressão "Ele fez saber”, no grego (semaino), traz a ideia de “manifestar por sinais”, o que no contexto bíblico significa comunicar uma mensagem por meio de símbolos e imagens. A mensagem recebida por João e que ele devera transmitir aos seus leitores será feita por meio de uma linguagem simbólica, de maneira que, para uma interpretação coerente desta mensagem deve se evitar um literalismo crasso.

 v.2 – o qual testemunhou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus, conforme tudo o que viu,
 A tradução encontrada no Novo Testamento do Século Vinte preserva com clareza a ligação entre os termos gregos ‘testificou’ e ‘testemunho’: “o qual testificou da Mensagem de Deus, e do testemunho acerca de Jesus Cristo, não omitindo nada daquilo que viu”. Os dois termos têm a mesma raiz – martyr – e provavelmente o escritor as utiliza propositalmente, pois ‘testemunho’ pode significar ‘martírio’ e ‘testificou’ pode significar ‘tornar-se um mártir’. No contexto histórico do livro os cristãos eram martirizados justamente por que eram testemunhas de Jesus e testificavam de Seu Evangelho (6.9; 20.4), esta era também a razão pela qual João estava na ilha de Patmos (1.9).
conforme tudo que viu – a ideia aqui está em aposição com a palavra de Deus e o testemunho de Jesus. O testemunho de João é verdadeiro não somente em relação a este último livro, que fecha o cânon bíblico, mas em relação a toda revelação anterior registrada em cada página da bíblia (cf. João 21.24; Ap. 19.35; 22.8, 16, 20). É preciso lembrar também que quando João está escrevendo provavelmente seja o último dos apóstolos ainda vivo e que, portanto, ainda teria condições de fazer um testemunho ocular de Jesus. A veracidade deste testemunho de João é fundamental uma vez que todos os crentes devem estar preparados para morrer por sua fé em Jesus.

 v.3 – Bem-aventurado aquele que lê as palavras desta profecia, e bem-aventurados são aqueles que ouvem e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo”.  
Bem-aventurado” esta é a primeira da série de sete bem-aventuranças contidas neste livro. O fato de serem sete significa que se trata de uma alegria perfeita e/ou completa. O que lê está no singular e os que ouvem no plural porque a mensagem deveria ser lida por um dos membros de maneira que toda congregação pudesse ouvir, o que era uma prática comum na igreja primitiva (Cl 4.16; 1Ts 5.27), por pelo menos duas razões: a dificuldade de se fazer cópias da mensagem e pelo fato de a grande maioria dos cristãos eram analfabetos.
“as profecias deste livro” – a mensagem contida no livro não é apenas uma revelação, mas também uma profecia, o que a coloca no mesmo contexto das profecias do AT e seus portadores no mesmo nível dos antigos profetas de Deus. A mensagem profética permeia todo o livro e não apenas parte dele (cf. 22.7; 22.18), impedindo que o livro seja retalhado ao bel prazer de seus estudantes. Também não se trata de adivinhações especulativas oriundas da curiosidade do que se vai acontecer no futuro. A proposta desta profecia não é que adentremos ao mundo celestial em busca de seus segredos, mas justamente o contrário, é Deus que, por meio de Jesus, adentra o nosso mundo, a nossa história e se faz conhecer por meio de Sua mensagem, contida na Palavra e pela ação iluminadora do Espírito Santo (cf Jo 14.26; 16.13; Ap 1.10; 4.2, também chamado de Espírito da Profecia Ap 19.10).
“e guardam as coisas que nela estão escritas” – o verbo grego utilizado aqui é o mesmo utilizado em todo o NT para se “guardar” a Lei, os Mandamentos, e particularmente nos demais escritos joaninos. Não é suficiente ouvir é necessário que a mensagem seja crida e vivenciada (cf Lc 11.28); e somente estes que “guardam” é que experimentarão da superabundante felicidade mencionada antes.
“pois o tempo está próximo” – O “próximo” retoma a ideia anterior do “breve” (1.1). Com a sua primeira vinda Cristo introduziu na nossa história uma nova modalidade de tempo, pois com Ele entramos na “plenitude do tempo” (Gl 4.4); o nosso tempo perdeu o centro de gravidade depois que em Cristo “chegou o fim dos tempos” (1Co 10.11); vivemos no intervalo entre a primeira vinda e a segunda vinda que é o “dia de Jesus Cristo” (Fp 1.6,10; 2.16) que é iminente. Nesta frase está incluído também um alerta de vigilância, um incentivo ao encorajamento e consolo, que permeia toda a mensagem do Apocalipse e se estende a todas as gerações da igreja e não apenas para os primeiros leitores, o que fica atestado pelas perseguições que os cristãos sofreram e continuam sofrendo por causa de sua fé em Cristo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Historiologia Protestante
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Referências Bibliográficas
CORSINI, Eugênio. O Apocalipse de João. São Paulo: Edições Paulinas, 1984. [Grande Comentário Bíblico].
LADD, George. Apocalipse – Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2008.



[1] Apocalipse é também conhecido como um tipo de literatura chamada apocalíptica e que foi desenvolvida pelo judaísmo do período interbíblico [entre Malaquias e Mateus]. Ainda que haja algumas semelhanças, também são evidentes muitas distinções entre o Apocalipse e aquelas literaturas apocalíptica. Uma das mais significativas destas distinções é o fato de que o autor neotestamentário este totalmente contextualizado no AT, de onde tira todas as suas referências e à luz das novas revelações interpreta todo o contexto profético veterotestamentário pela ótica Cristológica. Entretanto, em nenhum momento o autor do Apocalipse faz qualquer referência ou alusão a qualquer texto da literatura apocalíptica judaica. A única afinidade explicita entre eles é a utilização da linguagem apocalíptica. Assim Ladd conclui: “Isto confirma a afirmação de que o Apocalipse não é, como muitos têm dito, simplesmente um escrito apocalíptico judeu ‘batizado’ na igreja cristã” (LADD, 2008, p. 19). 
[2] Corsini defende esta interpretação para fundamentar todo o seu comentário do livro: ”Com efeito, se o livro trata de coisas reveladas por Cristo a João, o caráter ‘profético’ desse cumprimento, no sentido de algo voltado para o futuro, torna-se automático. Mas se ‘revelação de Jesus Cristo’ quer dizer, como sustentamos, a revelação do próprio Jesus através da histórica, compreendida como história da salvação, seu cumprimento coloca-se num outro plano, e significa simplesmente que o plano salvífico de Deus foi atuado, realizado” (CORSINI, 1984, p. 80).
[3] Mas a dificuldade aqui neste versículo não é maior do que em muitas outras partes. Paulo disse: ‘Perto está o Senhor’ (Fp 4.5). Pedro declarou: ‘Está próximo o fim de todas as coisas’ (1Pe 4.7). Tiago afirmou: ‘A vinda do Senhor está próxima’ (Tg 5.8). A explicação está na iminência dos eventos, isso é, são eventos que se realizarão a qualquer momento. O tempo destes acontecimentos já estão determinados, mas são sabemos quando, mas não se atrasara um segundo se quer, pois não dependem em nada do ser humano ou de qualquer outra coisa, a não ser da vontade de Deus.

A T O S - Data e Marco Histórico

Em relação a uma posição mais tradicional há pelo menos duas vertentes no que concerne à data do livro de Atos:
Com base em Irineu,[1] que data Mc e Lc pouco depois do martírio de Pedro e Paulo em Roma, bem como o prólogo antimarcionita e o Cânon de Muratori, a data de composição de Atos deve ser colocada entre os anos 70 e 80.
Outra tradição cristã antiga, fundamentada principalmente em Eusébio de Cesárea,[2] que afirma haver Lucas escrito este seu segundo volume de Atos um pouco antes de Paulo ser absolvido de seu primeiro encarceramento. Deste modo, Atos deve ter sido escrito no final de 62 e princípio de 63.
A crítica moderna, com base nas análises literárias do texto, também se divide em duas correntes:
Uma, em que se alinham vários estudiosos entre os quais Harnack,[3] propõe a datação em torno de 63, baseada principalmente no término abrupto do livro, sem qualquer referência a libertação de Paulo, nem a outros fatos importantes como a destruição de Jerusalém no ano 70, bem como às primeiras perseguições mais violentas aos cristãos por parte do Império Romano, a partir do ano 64.
A outra posição insiste em colocar a data para depois da morte de Paulo (66 ou 67), porém não estão de acordo se foi antes ou depois de 70.
Ainda se defendeu em tempos anteriores datas bem posteriores (115 a 130 d.C.). A chamada Escola de Tubingen,[4] cujo expoente maior foi F. C. Baur[5] propunha esta data avançada, pois entendiam que o objetivo do escritor era apaziguar os conflitos entre os cristãos judeus, cuja liderança advinha de Pedro e os cristãos gentios cujo baluarte era Paulo. Entretanto, a fundamentação histórica desta tese demonstrou-se frágil e hoje praticamente abandonada. Outros advogados de data tão avançada tentaram associar o escritor de Atos com os escritos históricos de Josefo (Antiguidades, 94 d.C.), mas uma vez mais falta consistência histórica para tal exercício acadêmico.
Muitos estudiosos entendem que Atos não poderia ter sido escrito muito tempo depois de 90, pois traz em suas páginas uma visão bem positiva e até otimista do Império Romano, em relação ao cristianismo, o que mudou radicalmente após Domiciano e também o escritor não faz a mínima referência às correspondências de Paulo, que já estavam reunidas e circulavam juntas no final do século I.

O Império e o Cristianismo
O Império Romano estava em seu apogeu. Augusto havia estabelecido um firme fundamento administrativo sobre o qual seus maiores sucessores puderam construir e os piores não puderam demolir.
A continuação da civilização romana trouxe benefícios para os habitantes do Império, mesmo se os governantes foram fracos ou tirânicos ou ambos. Os Imperadores durante o período coberto pelo livro de Atos, c. 31-63 d. C., foram: Tibério (14-37), Calígula (37-41), Claudio (41-54), Nero (54-68).
Tiberius Claudius atentou para o bem dos seus vastos territórios, enquanto Calígula e Nero, o pouco que fizeram foi ruim. Mas, apesar dessas variações no governo do Estado manteve-se as condições para a propagação do Evangelho.
Os fatores que ajudaram na tarefa dos apóstolos foram:
§  um governo relativamente estável,
§  um sistema administrativo comum,
§  a justiça concedia a cidadania romana cada vez com mais facilidade,
§  paz preservada pelas bem disciplinadas legiões,
§  estradas chegando a todos os cantos do mundo então conhecido
§  e a utilização da língua grega – falada por todo o império.
A princípio o cristianismo usufruiu do vínculo com o judaísmo. Os judeus haviam sido dispersos pelos mais variados lugares do império, incluindo a capital, e suas crenças básicas foram amplamente toleradas pelos romanos. Assim, o cristianismo, como um apêndice da fé mais antiga, compartilhou a tolerância, mas depois descolou-se do judaísmo. Os judeus foram expulsos de Roma durante o reinado de Claudio (Atos 18: 2), e as fortes aspirações nacionais dos judeus causou a rebelião na Palestina e a desastrosa guerra dos anos 66-70 d. C., que culminou com a destruição de Jerusalém em 70 d. C.
Na medida em que a relação dos judeus com o império se deteriora, a situação dos cristãos torna-se preocupante. Não eram uma religião legalmente reconhecida e seus membros não eram protegidos pela lei. Quando surgiram as dificuldades, como quando do terrível incêndio de Roma no ano 64 d. C., foi fácil culpar a comunidade cristã, e as perseguições subsequentes produziram um terrível precedente que foi seguida fielmente nos anos seguintes.
Esta situação serviu como um pano de fundo para Lucas preparar sua história da igreja primitiva e de escrever o seu segundo volume - Atos.


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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
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[1] Ele foi um dos discípulos pessoais de Policarpo, que por sua vez era discípulo do Apostolo João. Irineu serve como elo importante com a época dos Apóstolos, sendo martirizado cerca do ano 200. Em seus escritos encontra-se muitas referências da literatura neotestamentária (120-205 d.C.).
[2] Bispo da igreja de Cesárea quando Constantino ascendeu ao trono. Escreveu uma história da igreja, detalhando ao cristianismo desde os dias de Jesus até o tempo de Constantino (270-340 d.C.).
[3] Professor de história das religiões no Colégio de França em 1909, ele escreveu grande número de obras so­bre as origens do cristianismo e a histó­ria comparada das religiões, tornando-se cada vez mais crítico em relação aos próprios fundamentos da fé.
[4] Na cidade de Tübingen (port. Tubinga), no estado alemão do Baden-Wüttenberg, foi fundada em 1477 uma instituição que nos séculos seguintes se tornaria uma das mais prestigiosas, particularmente no que concerne aos estudos teológicos. Tornou-se o principal centro acadêmico liberal no que concerne os estudos bíblicos.
[5] Em 1826 chegou em Tübingen o exegeta Ferdinand Cristian Baur que até sua morte em 1860 exerceria influência dominante na pesquisa exegética do Novo Testamento e deixando um vasto legado que perdura até hoje, firmando definitivamente o nome daquela universidade no campo da pesquisa neotestamentária. Atualmente grande parte de suas críticas sobre os livros bíblicos tornaram-se fragilizadas.