terça-feira, 19 de abril de 2016

As Mulheres na Vida e Ministério de Jesus

Os evangelistas registram de forma intensa o papel relevante desempenhado pelas mulheres na vida e ministério de Jesus.
Começando pela genealogia, o que não era comum em se tratando de judaísmo, Mateus o mais judaico deles faz questão de incluir não apenas a mãe (Maria) mas outras três mulheres, inclusive com biografias pouco ortodoxas.
As mulheres ocupam espaço nas parábolas de Jesus, seu método preferido para ilustrar as verdades espirituais do seu Evangelho.
Todos os evangelistas indistintamente registram episódios em que as mulheres aparecem interagindo de forma positiva no transcorrer do período de ministério de Jesus. Algumas tiveram um encontro pessoal com Jesus, outras experimentaram de seu poder miraculoso e ao menos duas foram citadas por Jesus como modelo de fé ou ilustração de sua mensagem.
Mas é ao final de seu ministério, quando a grande maioria dos homens se afastaram, que as mulheres assumem um papel de grande ousadia e fé. São elas que permanecem ao pé da cruz e por isso foram elas também a terem o privilégio de serem as primeiras testemunhas da sua ressurreição e as primeiras a serem comissionadas a transmitirem esta mensagem.
No conjunto das narrativas evangélicas temos o maior e mais completo testemunho da importância e valorização da mulher. É no Evangelho de Cristo que a mulher é resgatada da invisibilidade e da subserviência, e colocada no mesmo nível do homem. É no cristianismo, puro e simples, que as mulheres serão tratadas e respeitadas como iguais em dignidade e honra.

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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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segunda-feira, 18 de abril de 2016

CONTEXTO HISTÓRICO DOS EVANGELHOS


Ao menos dois escritores da antiguidade contribuem muito para localizarmos historicamente os acontecimentos narrados pelos evangelistas. Ao lermos as obras produzidas por Josefo, um judeu e por Eusébio, um cristão, podemos encontrar um terreno firme para estabelecermos o tempo e os lugares indicados pelos escritores evangélicos.

FLÁVIO JOSEFO
Como um bom judeu ele conhecia muito bem as regiões da Judéia e Galileia, sem falar na capital Jerusalém. Durante a chamada Primeira Revolta Judia, ele foi um dos comandantes. E por esta razão veio a se tornar um dos mais procurados por Roma “vivo ou morto”. Mas sua situação deu uma reviravolta inimaginável quando predisse que o general Vespaziano, que o havia prendido, se tornaria o próximo imperador, o que de fato veio acontecer. Agora tendo um novo status Josefo vai se tornar um dos maiores historiadores judaicos de todos os tempos. Suas obras “História das Guerras Judaicas” e “Antiguidades” tornaram-se indispensáveis para se conhecer o que aconteceu durante o período romano na Palestina.
Ele tinha a tendência de exagerar, principalmente as questões numéricas, talvez com o intuito de tornar seus relatos mais empolgantes e vistosos. Também colocava sempre nos aguerridos e nacionalistas “zelotes” a responsabilidade da grande revolta dos judeus contra o império romano. Mas sem dúvida é a grande obra referencial para sabermos em que contexto os relatos evangélicos foram escritos.
Quando se lê as obras de Josefo temos a nítida impressão de que os evangelistas não criaram um mundo virtual enquanto escreviam suas narrativas sobre Jesus, mas um mundo real e que pode ser verificável por outras fontes históricas da época. Também ajuda muito a desmitificar a Palestina dos dias de Jesus, que às vezes é vista como um lugar calmo e sereno, quase mítico – as páginas de Josefo deixa claro que nos dias de Jesus a Palestina e principalmente a Galileia era um  barril de pólvora sempre pronto a explodir.. A leitura de Josefo nos permite compreender melhor os escritores evangélicos e o próprio ministério de Jesus e seus ensinos.

EUSÉBIO (de Cesaréia)
Apesar de Eusébio ser de um período posterior aos evangelistas (c. 260-339 d.C.) ele viveu em Cesaréia, na costa marítima. Sua obra maior é “História Eclesiástica”, em dez volumes, o que o coloca como equivalente cristão à obra judaica de Josefo. Ele veio a ser bispo da Palestina em um período crítico, quando o imperador Constantino assume as redes do Império Romano e o transforma no Império Bizantino. O que interessa é que ele registra citações extensas de pessoas que estiveram visitando a região na época dos primeiros cristãos. Ele também escreveu duas outras obras interessantes para o estudioso do NT: Martyrs of Palestina, onde narra as perseguições que os primeiros cristãos sofreram na Palestina pelos imperadores romanos e outra obra “The Onomastikon” uma espécie de dicionário de nomes e lugares bíblicos, possibilitando identificar os locais indicados pelos evangelistas, ou ao menos, como eles eram lembrados pelos cristãos durante os primeiros 300 anos depois dos acontecimentos. 

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JESUS E OS DOZE - Introdução

                Um dos momentos mais significativos do Ministério terreno de Jesus é quando Ele resolve chamar para junto dele um seleto grupo de discípulos, que ficaram conhecidos como Apóstolos, e que a partir daquele momento o acompanharam mais de perto e foram ouvintes de Seus ensinos e participantes de seus milagres.
                Lendo os registros evangélicos deste momento não encontramos nenhuma razão pessoal nos que foram selecionados, que pudessem distingui-los de tantos outros que naquele momento também seguiam a Jesus. Ao contrário, de alguns deles, encontraremos ao longo das narrativas e de Pedro mais acentuada no final, relatos pouco apreciáveis sobre a conduta e/ou deles e para piorar no momento derradeiro, quando Jesus está sendo pregado, junto ao Calvário vamos encontrar apenas o jovem João e algumas das mulheres que acompanharam Jesus durante Seu Ministério. Tudo isso poderia contribuir para desqualificar estes selecionados, mas quando Jesus chamou cada um deles, sabia quem eram, sabia o que fariam, mas assim mesmo os chamou, pois Jesus queria estes homens e não outros.
               Nenhum deles decepcionou Jesus, nem mesmo Judas Iscariotes, pois Jesus sendo Deus conhecia a cada um e suas múltiplas limitações, ao contrário, amou cada um deles e os amou até o fim, amou cada um apesar de suas limitações e debilidades; se Jesus fosse chamar pessoas perfeitas, teria que chamar apenas os anjos, pois nesta terra apenas um Homem não falhou – Jesus!
                O chamado deste grupo peculiar de discípulos, antes de nos desanimar, deveria nos animar, pois eles formam um representativo de todos aqueles que continuaram sendo chamados por Jesus, através do Espírito Santo, para aprender com Ele e serem como aqueles, enviados a proclamarem Sua mensagem ao mundo.
                 Jesus continua a chamar homens e mulheres, apesar do que somos, porque simplesmente nos ama e quer por nosso intermédio comunicar este amor salvador a outras pessoas, que como nós também são pecadoras que erraram e continuam a errar; o Evangelho é a mensagem apropriada para pessoas que sozinhas não conseguem servir a Deus, pois suas naturezas pecaminosas deturpam suas melhores boas intenções.
                  Enquanto vamos lendo as narrativas evangélicas e tomando contato com este grupo selecionado por Jesus, conhecendo cada um deles, nos sentimos mais normais, pois percebemos que eles são tão humanos e tão gente, como cada um de nós. Anima o nosso coração o fato de que Jesus não chama pessoas perfeitas, pois certamente estaríamos fora, mas chamou e continua a chamar gente como a gente, e que Ele mesmo vai pacientemente preparando para servi-Lo e realizar a Sua vontade e o Seu propósito eterno.
                  Na medida em que formos conhecendo um pouco sobre cada um deste seleto grupo dos Doze, teremos a oportunidade de vê-los como espelhos que refletem cada um de nós, crentes sim, desejos de fazer a vontade de Jesus sim, mas que como pessoas tropeçaram na pedra da contradição humana que Paulo tantas vezes também tropeçou, de maneira que as coisas boas e certas que sabemos devem ser feitas, não fazemos, mas as coisas ruins e erradas que sabemos não devemos fazer, fazemos. Quando estamos conscientes da nossa indignidade para merecer a misericórdia e o amor de Deus, estamos em melhor posição para experimentar o que ele pode fazer por nós.
                   Vamos examinar, como introdução, apenas algumas observações sobre os textos evangélicos onde o momento da escolha deste grupo acontece. Nos próximos artigos iremos destacar um a um deles, para que venhamos a aprender e apreender com eles.
Os Doze Apóstolos
                Para qualquer leitor do Primeiro Testamento fica fácil identificar a relação direta que Jesus pretende fazer entre Seu Ministério e a História de Israel. Deus forma a nação israelita a partir dos doze filhos de Jacó (Israel) e agora Ele vai inicia a formação do Novo Israel a partir deste grupo de Doze Apóstolos. Assim como Israel deveria ser uma bênção a todas as famílias da terra (Gn 22.17-18 e 26.4), a partir deste novo Israel (Igreja) a mensagem salvadora deve ser proclamada a todas as nações e até os confins da terra.
Comparando as Três Listas
                Lucas destaca que Jesus utiliza um termo técnico diferente para este grupo – “apóstolos” em lugar de “discípulos”. O objetivo está na nova função que eles iram desempenhar e não necessariamente em uma promoção; “discípulo” é alguém que aprende fazendo, o nosso “aprendiz”, enquanto que “apóstolo” é alguém comissionado a realizar uma tarefa oficial, o que eles farão em breve. Primeiro vem o Discipulado e somente então o Apostolado "Jesus nomeou os Doze para estarem com ele e, em seguida, mandou-os com sua autoridade para anunciar a Boa Nova. Muitas pessoas querem a autoridade de um Pedro ou João sem primeiro passar pela escola de discipulado. Aqueles doze receberam necessária instrução, treinamento, prática e acima de tudo, o tempo para amadurecer. Devemos estar dispostos a gastar tempo aprendendo com o Mestre, antes de ir para frente a fazer o seu trabalho público" (Barton, p. 81).
                Conforme indicado acima, três dos quatro evangelistas fornecem uma lista com os nomes dos doze selecionados. Marcos os dispõe de dois em dois, uma vez que posteriormente Jesus haverá de envia-los de dois em dois (Mc 6.7) e provavelmente fosse está a formação das duplas.
                De alguns deles nada ficamos sabendo como Bartolomeu, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelote, e dos demais temos parcas informações nas narrativas evangélicas, de maneira que muitas informações sobre eles somente será encontrada fora das narrativas bíblicas, como verificaremos. O que não é de surpreender, pois os evangelistas querem falar sobre Jesus Cristo e não sobre seus discípulos, mesmo deste grupo seleto apostólico. Esta é a diferença entre o Evangelho bíblico e o Evangelho atual: no primeiro é Jesus o centro da narrativa e das atenções; no Evangelho atual são os pregadores o centro das atenções.
                Destacam-se algumas observações e mudanças feitas aos nomes de alguns deles: Simão é alterado para Pedro (a rocha) e Levi altera-se para Mateus (o presente de Deus). Tiago, um dos mais velhos e João, o mais jovem do grupo, recebem a alcunha de “Boanerges” (filhos do trovão), por causa de suas atitudes impulsivas (Mc 9.38-41; 10.35-39; Lc 9.54-55). As mudanças de nomes são comuns nas narrativas bíblicas e implica sempre em mudança de caráter (de vida) e no caso dos “Boanerges” posteriormente um deles, João, será identificado como o Apóstolo amoroso, que transformação e o Pedro amedrontado, à beira da fogueira, será transformado em Pedro o destemido, diante do Sinédrio. O Evangelho de Jesus transforma vidas!
                Encontramos também algumas combinações estranhas nesta seleção de Jesus. Um exemplo é Simão, o Zelote, e Mateus, o cobrador de impostos compartilhando refeições juntos e convivendo pacificamente no mesmo grupo. Afinal de contas, os zelotes acreditavam que eles eram chamados por Deus para se envolverem em uma guerra santa contra "os poderes das trevas" e/ou “os inimigos de Israel” e na visão deles todos os cobradores de impostos, como Mateus, eram traidores da pátria e da própria religião judaica e deveriam ser mortos. Mas tal é o poder transformador de Cristo, que Ele poderia até mesmo incluir uma tão improvável combinação em seu pequeno grupo de apóstolos. E não poderíamos deixar de destacar Judas Iscariotes “que O traiu" (Mc 3.19) também deve lembrar-nos que a Igreja de Jesus nunca foi perfeita. Ele sempre teve seus Judas, mesmo em ministério. Mas Deus não o abandona e nem despreza, ao contrário, Jesus o ama e utiliza ele, apesar do que ele era.
                Outra característica do trio evangélico é que os quatro primeiros a serem chamados por Jesus são mencionados primeiramente, ainda que em sequência diferente: Mateus e Lucas os mencionam em pares de irmãos; Marcos (como Atos) coloca André por último (Pedro, Tiago, João), seguindo o critério de intimidade no grupo apostólico e Mateus é nome aramaico; Tadeu aparece em alguns manuscritos como Lebeu (não nos dois mais antigos) e Lucas o chama de “Judas, filho [ou irmão] de Tiago” (Lc 6.16; At 1.13).[1]
                Por último quero ressaltar o fato de que as três listas iniciam sempre com Pedro e conclui sempre com o nome de Judas Iscariotes. O adjetivo Zelote pode se referir a uma pessoa que era zeloso da Lei (como Saulo) ou alguém que foi membro do grupo revolucionário da época; Iscariotes se refere a uma pessoa que tinha origem do vilarejo Queriote nas regiões da Galileia.

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Guedes, Ivan Pereira
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Referências Bibliográficas
BARTON, Bruce. Mark - Life Application Commentary, Wheaton, 2000.
TASKER, R. V. G. The gospel according to St. Matthew. Tyndale New Testament Commentaries. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1961.




[1] “Pode ser que Judas fosse o seu nome verdadeiro; porém, mais tarde, devido ao estigma ligado ao nome Judas Iscariotes, Tadeu (que talvez signifique “de coração bondoso”) tenha sido um nome que substituiu o nome Judas”. (TASKER, 1961, p. 107).


sábado, 16 de abril de 2016

VOCABULÁRIO BÍBLICO – ἀββα [abba]

A palavra ἀββα [abba] é uma palavra grega de origem aramaica (אבא) pela qual a criança chamava o “pai”, podendo ser traduzida por uma forma mais carinhosa “papai”.[1] Para uma compreensão mais profunda da teologia, revelada nas páginas do NT, a utilização deste termo por Jesus para se referir a Deus e o fato de que ele ensina seus discípulos a fazerem da mesma forma é de suma importância. É indiscutível que nenhum judeu, nos dias de Jesus, ousara aplicar tal tratamento a Deus.
            Em outras religiões era comum encontrar esta relação paternal em relação à divindade. No Egito, por exemplo, mantém essa tradição, onde o Faraó no momento de sua entronização tornava-se filho do deus sol e, por conseguinte tornava-se também deus. Há vestígios desta relação no livro do Êxodo, onde os israelitas são chamados de “meu filho” por Deus (Êx 4.22,23).[2]
Para evitar qualquer equivoco os israelitas utilizam raramente esta identificação paternal, reservando para o Messias este privilégio de uma relação tão intima com Deus (2 Sm 7.14). A expressão do salmista: “Tu és meu filho; eu, hoje, te gerei” (Sl 2.7) será aplicado pela primeira e única vez, na história de Israel, à pessoa de Jesus (Atos 13.33). Esta dificuldade israelita com o termo “Abba” está diretamente relacionado com o forte conceito monoteísta, reforçado potencialmente depois do cativeiro babilônico. Em toda a narrativa do AT não encontraremos uma oração pessoal dirigida a Iahweh com o vocativo “Abba”.
Entretanto, quando entramos pelas portas da literatura do NT nos deparamos com uma mudança radical. A expressão “Abba” encontra-se mais de 250 vezes, sendo facilmente identificada como a fórmula típica com a qual os cristãos se referem e se dirigem a Deus. Jesus rompe definitivamente toda e qualquer barreira no relacionamento com Deus – o uso de “pai nosso” é um privilégio exclusivo de todos aqueles que nasceram de novo.  “Abba” é a nota de intimidade, de confiança e de amor que somente aqueles que foram inseridos na família como “filhos” (Jo 1.12,13) podem ter com seu “Pai” celeste.

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Referências Bibliográficas
COENEN, Lothar (editor). O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v.1, ed. Vida Nova, 1989. 
BARCLAY, William. New Testament Words. The Westminster Press, 1974.    
ROTH, Cecil. Enciclopédia Judaica – A-D. Rio de Janeiro: Editora Tradição S/A, 1967. [Biblioteca de Cultura Judaica]
TENNEY, Merrill C. (Org.). Enciclopédia da Bíblia, v. 1. Tradução da Equipe de colaboradores da Cultura Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
TURNER, Nigel. Christian Words, 1980. Dictionary of Christian Theology, Angeles, 1985.



[1] Na evolução da língua este termo saiu da esfera infantil para ser empregada também por filhos e filhas adultos, adquirindo o tom caloroso e familiar que se pode sentir em expressão tal como “papai querido”.
[2] Aqui Deus chama a nação de Israel de seu filho e primogênito em comparação aos primogênitos egípcios. A mensagem é facilmente entendida por Faraó, pois ele mesmo era chamado de filho de Ra ou filho amado do seu deus.

SÍNTESE BÍBLICA – Profeta Joel

            Os livros proféticos que compõem a primeira parte da Bíblia Cristã, que chamamos de Antigo Testamento, e que também se constitui na Bíblia Hebraica, não foram organizados de forma cronológica, mas foram colocados em uma ordem lógica. Desta forma temos os profetas que produziram mais material escrito (Isaías a Daniel) denominados de Profetas Maiores e depois na sequência temos doze profetas que deixaram menos material escritos (Oséias a Malaquias) denominados de Profetas Menores. Portanto, a única distinção entre eles é somente a quantidade de material escrito que deixaram e jamais a qualidade e valor de suas mensagens proferidas.
            Nestas sínteses haveremos de seguir uma ordem cronológica, esclarecendo de antemão que é uma proposta dentre tantas outras possíveis de serem estabelecidas, diante da enorme dificuldade de datar alguns destes escritos. Mas creio que mediante uma pesquisa acadêmica consistente é possível nos aproximarmos muito das datas originais quando essas mensagens foram anunciadas.
            Uma última observação geral é que todos os livros proféticos foram produzidos no período histórico quando a nação israelita já estava dividida em dois reinos: Israel era o Reino do Norte, cuja capital era Samaria; Judá era o Reino do Sul, cuja capital era Jerusalém.

Profeta Joel
           
Joel nasceu em Judá (Reino do Sul) e muito provavelmente tenha ouvido ou tomado conhecimento do profeta Elias e suas contundentes mensagens dirigidas ao rei Acabe e mais precisamente à rainha Jezabel, que haviam introduzido e proliferado, por toda nação, o famigerado culto ao deus Baal. E com certeza acompanhou o ministério profético de Eliseu que o sucedeu. Estes dois profetas de Judá tornaram-se o protótipo de oficio profético bíblico. E foi espelhando-se nesses antecessores que Joel proclama sua mensagem advinda da parte de Deus para os moradores de Judá.
            Sua famosa visão da praga de gafanhotos (2.2), compartilhada também por Sofonias (1.14-16), que sobreviria sobre a nação desobediente, tornou-se símbolo da manifestação do juízo divino, e apontava desde então para o vindouro grande e terrível “Dia do Senhor” (cf. Is 2.10).
            Diversos estudiosos localizam o ministério profético de Joel entre 835-796 a.C., durante o reinado de Joás, inicialmente tutelado pelo sumo sacerdote Jeoiada (2Rs 11.1 – 12.21; 2Cr 22 a 24). Corrobora esta data o fato de que diversos profetas fazem citação da mensagem de Joel (Am 9.13 e Jl 3.18; Is 13.6, 9, 10 e Jl 1.15; 2.1, 10; Sf 1.14, 15 e JI 2.1, 2; Ez 47.1 e Jl 3.18; Ob 17 e Jl 2.32). Ainda um último argumento para definir a data dessa profecia está no fato de que Joel registra como inimigos da nação os fenícios (3.4), os edomitas, e os egípcios (3.19), mas não faz nenhuma referência aos assírios ou aos babilônios, o que pode indicar que ele escreveu antes destas potências terem exercido seu domínio sobre a região, de maneira que ele pode ser colocado entre os primeiros profetas, como contemporâneo de Oséias e Amós.
Há pouco informação pessoal sobre o profeta, o que é uma característica da maioria dos escritos bíblicos, pois mais importante do que o porta-voz é a mensagem e aquele que lhe comunica a mensagem a ser proclamada. Seu nome Amós é um nome comum, amplamente difundido entre as tribos de Israel, mas teologicamente importante quando considerado em sua etimologia “Yahweh é Deus” tornando-se também o indicativo da vocação e da mensagem do profeta. Seu pai chama-se Petuel [Deus liberta] (Jl 1.1)[1] e suas diversas referências a Sião, Judá e Jerusalém (2.15, 23, 32; 3.1) indicam que era morador e exerceu seu oficio profético em Judá.
Sua mensagem aponta para uma perspectiva escatológica. Ele de forma peculiar e poeticamente bela parte de uma catástrofe muito natural naquela região e época no Oriente – a invasão de gafanhotos – para ilustrar o juízo eminente que estava por vir sobre a nação judaica rebelde e apostata no que concerne à Aliança que Deus havia estabelecido com ela. Para o profeta a devastação inigualável produzida pelas hordas de gafanhotos, pois deixavam a terra totalmente assolada, era o retrato perfeito do que haveria de ser para Judá e as demais nações ao redor o que ele denomina de o “Grande e Terrível Dia do Senhor” (Jl1.15; 2.1, 2, 11 e 31). Quando a graça e o amor não são suficientes para motivar o povo de Deus à obediência e conformidade com o padrão estabelecido quando da Aliança, resta somente o último recurso da manifestação de Seu juízo sobre eles, para que se arrependam e convertam-se à Deus.
Esse “Dia” escatológico é um período de tempo não delimitado e que posteriormente será retomado por Daniel (9.24-27) e também referido por Jesus (Mt 24.29-30); Pedro (2Pe 3.10-13) e João (Ap 7 ss.).[2] Sua mensagem pode ser dividida em duas partes: (1.1-2.17) exortação quanto ao julgamento eminente de Deus, um apelo ao arrependimento e a consequente promessa de restauração; (2.18-3.21) alerta que a praga de gafanhotos, por mais horrível e devastadora que pode ser, não é nada comparada ao julgamento de Deus que está por vir se não se arrependerem. O profeta afirma que esse tempo de juízo de Deus não será somente sobre Judá, mas também sobre todas as nações do mundo, pois todos terão que comparecer diante de Deus.

Esboço Básico
1.    A primeira divisão da profecia (1:1-2:27)
a.    Arrependimento: o profeta pede que o povo se desperte, chore e lamente (1:5-12)
b.    Função dos sacerdotes: conclamar o povo para um arrependimento nacional (1:13-14). Então o profeta menciona a tese da sua mensagem, o dia do senhor está perto (1:15).
c.    Alerta Geral: a trombeta deve ser tocada em Sião, para que o povo seja alertado de que o dia do senhor já está próximo (2:1-2).
d.    Conversão Genuína: o povo é convidado a converter-se ao Senhor de todo coração; a rasgar o coração, e não as suas vestes (2:12-14).
O Senhor sempre estará disposto a exercer sua compaixão, mediante um arrependimento sincero e se compromete a remover os gafanhotos, suprir suas necessidades e retirar seu opróbrio de diante das nações.
2.    Segunda divisão da sua mensagem (2:28 – 3:21)
a.    O derramamento do Espírito do Senhor; os sinais do dia do Senhor; o livramento dos fiéis de Jerusalém; o julgamento divino das nações, e as bênçãos divinas de Judá.
b.    Nos versículos 28 e 29, o Senhor promete derramar do seu Espírito sobre todas as idades e todas as classes do seu povo.

Joel segue o modelo dos profetas contemporâneos, olhando sempre com esperança para o futuro. Nas descrições das circunstâncias históricas das duas partes da mensagem percebe-se a unidade do livro.

Estatísticas:
O livro de Joel é o 29º livro da Bíblia; 7º dos livros proféticos [Isaías-Malaquias]; 2º dos 12 profetas menores [Oséias-Malaquias]; contém 3 capítulos; 73 versículos; 2.034 palavras.

Cronologia[3] Histórica
A elaboração de uma cronologia dos fatos históricos da bíblia é sempre um exercício difícil, pois nem sempre os acontecimentos são demarcados com indiscutível exatidão. Mesmo com o avanço expressivo da ciência arqueológica há muito que ignoramos da época Patriarcal (Genesis), dos primórdios de Israel e seu estabelecimento em Canaã (Êxodo-Rute). A partir da Monarquia (Davi) a cronologia começa a ter maior grau de exatidão e conciliação com a História geral da época.
Uma cronologia dos profetas encontra as mesmas dificuldades acima mencionada, pois raramente o redator da mensagem estabelece marcos cronológicos indiscutíveis, mas abaixo indicamos uma cronologia mais conservadora e indicando quando necessário outras opções abalizadas.
Cronologia Profetas
História a.C.
História Geral a.C.
O Reino Unido
Período Média da Assíria[1] (1273 – 1076)
Tukulti- Ninurta I (1244 – 1208)
- Promoveu um saque à Babilônia (1235)

Tiglate-Pileser I (1115 – 1076)
- Ampliou os domínios assírios até o Líbano, mas após sua morte o império declina.

Renascimento do Império Assírio (1076 – 750)
Este ciclo é o apogeu do poder Assírio quando domina a Mesopotâmia, a Síria, a Fenícia, a Palestina (Israel), o Egito.

Adad-nirari II (....) assume o trono dos assírios e inaugura uma dinastia que se preocupa com o fortalecimento do reino, preparando as bases para o estabelecimento de um poderoso Império Assírio, que viria a se concretizar cerca de 200 anos mais tarde.

Assurbanipal I (883 – 859)
- grande expansão ao sul e ao oeste da Mesopotâmia

Salmaneser II (859 – 823)
- a partir da batalha de Carca, em 853, dominou diversas áreas a oeste, inclusive Israel.


Reinado de Saul (1050 – 1010)
Reinado de Davi (1010 – 970)
Reinado de Salomão (970 – 931)
O Reino Dividido
JUDÁ (Jerusalém)
Reino do Sul
ISRAEL (Samaria)
Reino do Norte
Roboão (931 – 913)
Abias (913 – 911)
Asa (911 – 870)
Jeroboão I (931 – 910)
Nadabe (910 – 909)




Josafá (870 – 848)
Baasa (909 – 886)
Elá (886 – 885)
Zinri (885)
Onri (885 – 874)
Acabe (874 a 853)

[Profeta Elias]

Acazias (853 – 852)

[Profeta Eliseu]

Jeorão (848 – 841)
Acazias (841)
Atalia (841 – 835)
Joás (835 – 796)

[Profeta Joel]
Jorão (852 – 841)
Jeú (841 – 814)

Jeoacaz (814 a 798)

Amazias (796 - 781)
Uzias (781 – 740)



[Profeta Isaías]

Jeoás (798 – 783)
Jeroboão II (783 – 743)

[Profeta Jonas]
[Profeta Amós]
[Profeta Oséias]



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[1] A Septuaginta e a Peshita traduzem por Betuel (cf. Gn 2.7-9).
[2] Esse espaço não possibilita a discussão dessa profecia.
[3] A palavra portuguesa “cronologia” vem da grega khro·no·lo·gí·a (de khró·nos, tempo e lé·go, dizer ou contar), isto é, “o cômputo do tempo”.
[4] Os assírios eram um povo semita estabelecido, originalmente, no norte da Mesopotâmia, na região do alto Rio Tigre. Nesta época, sua principal cidade era Assur e eles alternavam períodos de independência com outros em que eram rebaixados a um mero estado-vassalo.